Construir Resistência

13 de setembro de 2021

Relato de quem sofreu: a ‘covid leve’ não é tão leve assim. A farsa sobre a recuperação total

Por Vinicius Serpa Araújo   Independentemente dos contorcionismos retóricos, muitos dos recuperados são, na realidade, sobreviventes; e os dados brasileiros são nada menos do que catastróficos. A falta de seriedade na gestão da pandemia, para dizer o mínimo, nos fez – e faz – pagar um preço mais alto do que a média global.   Os recuperados da covid-19 são maioria. Só no Estado de São Paulo, pessoas que tiveram sintomas leves somadas às que sobreviveram mesmo depois de hospitalizadas estão na casa dos 96%, ou 4.153.071 até aqui. É o número que o governo federal gostaria de divulgar e atualizar desde o início da pandemia. Acontece que ele é uma farsa: mostra que a circulação da doença não foi controlada como deveria. O vírus teve passe livre para matar quase 600 mil brasileiros enquanto escrevo este texto; só em São Paulo foram 147.236 vidas perdidas. Isso não pode ser considerado boa política pública em canto nenhum. Outro ponto menos abordado, mas igualmente importante, é que esses cidadãos não estão recuperados. A covid-19 deixa sequelas por onde passa, algumas já mapeadas e outras ainda em análise. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) indica que 60% dos pacientes com covid-19 no ano passado estão em condições de saúde semelhantes ao da alta hospitalar. Ou seja, mesmo depois um ano, as consequências da covid são sentidas por mais da metade da população. A “covid longa” também foi alvo de estudo comunidade científica virtual Patient-Led Research Collaborative (PLCR). Dos 3.762 pacientes analisados com essa vertente da doença, 77% apresentavam fadiga depois de seis meses, 72% tinham mal-estar depois de fazer esforço, 55% disfunção cognitiva e 36% das mulheres apresentaram problemas no ciclo menstrual. Voltar a trabalhar ou realizar atividades domésticas virou desafio. Já uma meta-análise de 215 estudos sobre a doença, feita por Jonathan Rogers, pesquisador da University College London, constatou que sintomas preocupantes como os neurológicos e psiquiátricos são a regra da covid-19, e não a sua exceção como se imaginava inicialmente. E isso vale para casos leves e graves – os mais comuns encontrados foram a perda do olfato (43%), fraqueza (40%), fadiga (38%), perda do paladar (37%), dor muscular (25%), depressão (23%), dor de cabeça (21%) e ansiedade (16%). Dito isso, recentemente me enquadrei na estatística publicitária feita pelo governo federal: tive covid-19, os sintomas foram leves e posso dizer que me recuperei. Nesse período, conclui que mesmo os casos ditos leves não são tão leves assim. Dores de cabeça, febre e dores ao respirar foram constantes e fortes por, ao menos, cinco dias no auge da doença. Dormia em média três horas por noite, tamanho o mal-estar, e não sentia cheiro algum. O paladar também foi afetado, embora menos. O pior não foi nada disso, mas a carga emocional de estar com covid-19: e se meu caso escalar e a situação piorar? E se eu apresentar algum sintoma raro? E se eu infectei alguém da família, amigos ou até estranhos, sem saber que estava doente? Em meio a tantos “se”, compreendo que estou no campo dos que têm sorte. O que deve se concretizar é que o meu caso, somado ao de muitos outros brasileiros, em breve deve estar em uma plaquinha de “vidas salvas” pelo governo. Este que, na prática, nada fez para impedir o cenário. Independentemente dos contorcionismos retóricos, muitos dos recuperados são, na realidade, sobreviventes; e os dados brasileiros são nada menos do que catastróficos. A falta de seriedade na gestão da pandemia, para dizer o mínimo, nos fez – e faz – pagar um preço mais alto do que a média global.   Vinicius Serpa Araújo tem 26 anos e é Relações Públicas   Matéria publicada originalmente no link abaixo: https://bemblogado.com.br/site/sarau-delivery-ana-do-chorinho-com-o-presente-de-sivuca-a-velha-guarda-e-pixinguinha/  

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O Homem Santo de Toda Fé

Por Adriana do Amaral Centenário de Dom Paulo Evaristo Arns em tempos de perdas de direitos no Brasil É comum ouvirmos a expressão: foi um homem à frente do seu tempo. Com o cardeal arcebispo de São Paulo foi exatamente o contrário. #DPauloEvaristoArns (1921-2016) foi um homem do seu tempo e viveu para aliviar as dores dos horrores de uma época. Religioso que não apenas pregava a palavra de Deus, mas fazia valer o valor divino da vida. Promoveu a dignidade da pessoa humana durante a vida toda. Foi ativista dos #Direitos Humanos durante a #ditadura militar. Intercedeu pelos religiosos dominicanos (1969), preservou a memória das vítimas da #ditaduramilitar como estudante Alexandre Vannucchi Leme (1973) e o sindicalista Santos Dias (1979), negociou com generais ao lado dos familiares dos presos políticos. Foi militante ativo nas #ComissãoJustiçaePaz de São Paulo, nas Pastorais da Moradia, Operária e Infância; coordenou o projeto #BrasilNuncaMais; articulador do movimento #DiretasJá! dentre tantas ações inclusivas sociais. Talvez o episódio mais marcante envolvendo D. Paulo tenha sido o assassinato do jornalista #SamuelHerzog, no cárcere. Preso, ele sucumbiu à tortura no #DOI-CODI (II Exército em São Paulo), mas a morte foi anunciada como suicídio. Judeu que era, seria negado a ele o direito do enterro digno. D. Paulo não apenas denunciou a tortura e o crime de morte, pelo Estado, como conclamou o rabino #HenrySobel e o reverendo evangélico #JaymeWright para, juntos, celebrarem um culto ecumênico em memória de Vlado. Isso, em plena #CatedraldaSé, no marco zero da capital paulista no ano de 1975, num ato de resistência. Catarinense de Forquilhinha, tornou sacerdote em 1965. À vocação franciscana somou à erudição, com formação na #UniversidadedeSorbonne, em Paris. Religioso cidadão que pregava a consciência social e política pela #TeologiadaLibertação e #ComunidadesEclesiaisdeBase. Sua nomeação a Cardeal Arcebispo de São Paulo aconteceu no auge da repressão política no Brasil, em 1073. D.Paulo foi um dos 41 bispos que firmaram o #PactodasCatacumbas, em 1959, durante o Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII. Ele cumpriu o prometido de “viver como pessoas comuns” até os 95 anos. Impossível não remeter à médica sanitarista #ZildaArns, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, que trabalhou no combate à desnutrição infantil, simplificando uma solução acessível para as camadas da base da pirâmide social em todas as nações: o soro caseiro, que salvou uma geração.  Homem e mulher que fizeram toda a diferença no tempo em que viveram. Basta a nós bebermos nessa fonte.   Eu gostaria de ser lembrando como amigo do povo e ser padre ser padre na vida eterna”, dizia o homem santo para quem “o Deus da Justiça é o mesmo Deus do amor       Dom Paulo Evaristo Arns   Fotos: reprodução  

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Mundo do trabalho. O futuro chegou?

Por José Paulo Barbosa “O dia não veio, O bonde não veio, O riso não veio, Não veio a utopia, E agora, José?” Carlos Drummond de Andrade   Ao sair do prédio onde moro para ir ao mercado, encontrei um rapaz que estava fazendo uma entrega para meu vizinho. Observei que ele usava uma bicicleta de um aplicativo de aluguel de um banco conhecido. Essa é uma das novas possibilidades de trabalho nos dias atuais. Na minha juventude, trabalhei numa exportadora de café em Santos (SP). Quando ia ao porto, via trabalhadores carregando sacas de café nas costas, dos caminhões para os armazéns e depois para os porões dos navios. Entre o caminhão e o armazém, um funcionário da exportadora furava os sacos, retirando alguns grãos e colocando numa pequena lata redonda (para classificar o café a ser exportado). Pelos pequenos furos das sacas, caíam alguns grãos no chão, mulheres e crianças os recolhiam para vender nas torrefadoras do centro da cidade. Os “contêineres” mudaram esse todo esse cenário. Não há mais a necessidade de trabalhadores braçais, e de quebra, também tornou desnecessários os armazéns. Os contêineres não precisam de armazém, só de um piso e um guindaste gigante. O café é embarcado na fazenda dentro do contêiner, vem de caminhão ou trem até o pátio e estará dentro do navio com apenas um operador de guindaste. Em 1995, numa viagem sobre novas tecnologias aos Estados Unidos, visitei os armazéns de Nova York. Quarteirões inteiros da região portuária foram abandonados pelo novo uso do contêiner. Os contêineres ficam em pátios ao lado dos navios e transportam todo tipo de mercadorias, tornando os armazéns desnecessários. A prefeitura iniciou uma reestruturação dos armazéns transformando-os em pequenas vilas com casas, praças, bibliotecas e escolas. Uma simples mudança no processo de trabalho causa um grande impacto na cidade e na sociedade. A inovação é uma constante nos dias atuais em todas as áreas. E como no videogame, “o jogo mudou de nível”. O uso massivo de robôs nas indústrias (com redução do emprego industrial), a automação dos transportes e bancos, os novos materiais, a tecnologia de informação integrada aos equipamentos e etc. Já pensou em uma economia que não tem refinaria, posto de gasolina, gasoduto e poços de petróleo? Isso já está em marcha com os carros elétricos! A inteligência artificial nos serviços é, também, uma realidade. Um marido contou uma piada, sua mulher deu uma gargalhada, seu filho riu, a Siri riu e a Alexa disse que já conhecia. Isso é só o começo. As inovação tecnológicas eram a substituição da força muscular dos trabalhadores por máquinas, agora é a incorporação da mente humana nas máquinas. O imenso aumento de produtividade do trabalho realizado pelas inovações tecnológicas e de processos, infelizmente, não trouxeram um mundo melhor para todos. O jovem com a bicicleta alugada é a ponta de uma imensa engrenagem de acumulação de riqueza global. Se você ganhar dez mil dólares por mês (mais de cinquenta mil reais). Em um ano terá cento e vinte mil dólares. Em dez anos, terá um milhão e duzentos mil dólares. Em MIL anos você terá um bilhão e duzentos milhões de dólares. Como uma única pessoa tem uma fortuna de cento e oitenta BILHÕES de dólares? O dono da Amazon tem, graças ao jovem entregador, outros trabalhadores, pequenos empreendedores, programadores, supervisores, gerentes e diretores dessa máquina em escala planetária. A redução de jornada de trabalho (mais gente trabalhando, menos tempo), aliadas a uma renda mínima para todos é uma saída para minimizar os danos desse mundo tão desigual. Simplificando, a luta de classe continua e tem novos desafios. É simples assim! “E agora, José?” José Paulo Barbosa é professor, escritor e militante de causas sociais e ambientais.

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Manifestações mostram que agora só restou uma via

  Por Simão Zygband   O PT e os demais partidos alinhados à Lula pretendem realizar uma manifestação da Campanha #ForaBolsonaro no dia 2 de outubro. Ela pretende mostrar que neste momento só existe uma única via e ela é a de Luiz Inácio Lula da Silva     Literalmente “flopou” (fracassou) a manifestação de “fora Bolsonaro” realizada em algumas capitais do país. Eles são majoritariamente racha do bolsonarismo, com a inexplicável participação de partidos consequentes como o PCdoB, PSB e PDT (estes dois últimos bastante indefinidos), além da eventualíssima  presença de uma única deputada estadual do PSOL/SP, Isa Penna, que descumpriu determinação da direção partidária de não participar do ato. Mesmo tendo a direção do PT “liberado” a militância, não houve presença de petistas no ato chamado pelo suspeito Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua. Havia o entendimento que esta manifestação não pertencia aos apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder disparado nas pesquisas de intenção de votos. Os petistas sentiram de longe o cheiro de “algo podre” no ar e não caíram no “canto da sereia”. Não foram poucas as acusações de que o PT “não quer o impeachment” de Bolsonaro, que quer que ele “fique sangrando” no poder até as eleições de 2022, que era necessário reforçar “qualquer ato” Fora Bolsonaro, por que “até a URSS havia se unido aos EUA para derrotar Hitler” (o que é uma meia verdade, pois na verdade, os soviéticos foram traídos pelos americanos e ingleses e enfrentaram sozinhos as tropas de Hitler). As manifestações fracassadas do bolsonarismo arrependido, tiveram a presença de todos os candidatos da chamada terceira via, como o oscilante Ciro Gomes (PDT), o presidente do Novo, João Amoedo, um tal de senador Alessandro Vieira (Cidadania/SE), o “perigoso” governador de São Paulo, João Doria, além de uma constelação de apoiadores do golpes e da liquidação dos direitos dos trabalhadores como Kim Kataguiri (DEM/SP), Tábata Amaral (sem partido) e o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL/AM). Para complicar ainda mais as manifestações do bolsonarismo arrependido (exceto Ciro Gomes, que fraquejou no apoio a Fernando Haddad nas eleições de 2018, indo passear em Paris no segundo turno), alguns manifestantes ligados ao Vem Pra Rua (VPR) se deram ao trabalho de levar para as ruas um boneco inflável mostrando Bolsonaro e Lula (este vestido com roupas de presidiário), apesar do ex-presidente ter sido absolvido de 18 processos “plantados” pelo ex-juiz Sérgio Moro. Marcou bem o acerto na posição do PT e da CUT de não engrossar os ato dos fascistas arrependidos. Mais do que mostrar que uma terceira via é praticamente inviável, as fracassadas manifestações deste domingo mostram claramente a divisão e o racha na extrema direita bolsonarista (o que enfraquece o sujeito que indevidamente ocupa a presidência da República), mas também o vigor e o tamanho do apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O PT e os demais partidos alinhados à Lula (espera-se que o PCdoB retome seu curso natural), pretendem realizar uma manifestação da Campanha #ForaBolsonrao no dia 2 de outubro, que certamente contará com muito mais gente nas ruas das principais capitais e cidades brasileiras. Ela vai mostrar que neste momento só existe uma única via e esta via é Luiz Inácio Lula da Silva  

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