Construir Resistência

22 de agosto de 2021

Domingo de cinzas com ar tóxico e cancerígeno

Por Anderson França   A grande maioria da população não se preocupou com a chamada chuva de cinzas que ocorreu neste domingo, 22 de agosto,atingindo grande parte da Capital, ABC e outras cidades da Grande São Paulo e municípios próximos do Interior. A causa um incêndio provocado por um balão que está dizimando a última reserva de cerrado no Parque Estadual do Juquery. O Domingo de Cinzas deveria ser um alerta, um pisca de preocupação reinante, mas no cenário atual de egocentrismo, egoísmo e falta absoluta de solidariedade, fica o lamentável e medonho episódio, registrado sem a devida importância, afinal extermínio de fauna e flora não rende voto, tampouco motivo para alardes coletivos. Mas, se tudo só funciona na base do susto: partículas de fuligem, na década de 80 e 90, com a nomenclatura de carvãozinho, oriunda de queimadas na região de Ribeirão Preto, com aval e análise da Ciência, foram consideradas como cancerígenas e incidência de câncer no cenário, então da Alta Mogiana. Assim, estudos recentes e pesquisas científicas vindas de Centros importantes da Europa concluíram o seguinte: partículas de fuligem podem chegar a parte interna da placenta. Neste circo de horror, ninguém está imune aos prejuízos da poluição. Acreditem, poupem-se se realmente tem amor no coração de pedra e alma urbanóide e espírito satânico de androma seus futuros descendentes, fetos de hoje ou amanhã na barriga da mãe. O novo tabaco é invisível aos insensíveis e gananciosos, o ar que todos nós respiramos é o mesmo, hoje um domingo de cinzas com ar tóxico e cancerígeno. Outro aviso importante: o ar tóxico, carvãozinho ou chuva de cinzas, partículas de fuligem ou qualquer outra denominação atual tem impacto na saúde de pessoas mais vulneráveis, no caso o futuro de qualquer País, as crianças!!! Se assustei alguém, valeu a intenção. Não é brincadeira: enquanto houver Sol é preciso defender a Natureza para garantir sobrevivência. A Revista Nature Communications é científica, um argumento vital para aqueles que desdenham jornalistas. Sou um rolo de jornalista e sempre ambientalista, na minha época, ecochato, ecologista, sou filho da terra, respeito e amo Gaia, que não é e nunca foi só translação e rotação, é ser vivente com mais de sete bilhões de artérias. Todos nós fazemos parte do contexto. Gaia pulsa e respira. Pensem por um segundo em vossos filhos, netos, bisnetos…Paz e bem . Anderson França é jornalista e ambientalista   Foto do site do deputado Maurici (PT)

Domingo de cinzas com ar tóxico e cancerígeno Read More »

Os procuradores inimigos do Brasil

Por Joaquim de Carvalho Se não é possível mandar esses procuradores para a cadeia, que sejam expostos pelo que efetivamente são: inimigos do Brasil A decisão que absolveu Lula da acusação da Lava Jato sobre o sítio de Atibaia reforça a necessidade de um rearranjo institucional que proteja a sociedade dos abusos do Ministério Público. Integrantes do órgão são, na prática, inimputáveis, e por isso violaram a democracia no Brasil, e hoje exibem à luz do dia sinais de enriquecimento, como é o caso de Deltan Dallagnol. Como são fiscalizados por pares, se sentem à vontade para cometer os maiores disparates. Quando têm o apoio da mídia comercial, como foi o caso da turma de Curitiba, a ousadia criminosa não encontra limites. Não é assim em nenhum lugar do mundo civilizado. A ação deletéria da Lava Jato foi responsável por uma tragédia ainda não devidamente descrita. O que ocorreu com as famílias dos 4,4 milhões de brasileiros que perderam o emprego por conta do desinvestimento de mais de 170 bilhões de reais em decorrência direta da ação do Ministério Público Federal em Curitiba — e suas ramificações em outros Estados? Se não é possível mandar esses procuradores para a cadeia, que sejam expostos pelo que efetivamente são: inimigos do Brasil. Em tempo: parabéns à juíza Pollyanna Kelly Maciel Martins Alves, da 12ª. Vara Federal de Brasil, que em sua sentença que absolveu Lula deu aula de direito a um lavajatista de Brasília.     Joaquim de Carvalho é jornalista, colunista do portal 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social Texto do Facebook do autor          

Os procuradores inimigos do Brasil Read More »

Sonia Castro Lopes

Por uma política de educação especial inclusiva

Por Sonia Castro Lopes e Rafael Guimarães Costa*   Em recente entrevista ao programa Sem Censura da TV Brasil, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, revelou mais uma vez que nesse (des)governo ‘um manda e o outro obedece.’ Ao dizer que “criança com deficiência atrapalha a aprendizagem das outras”, o ministro segue na contramão de uma política de educação especial inclusiva preconizada pela lei maior da educação (Lei 9394/96) e de várias medidas institucionais que convergem para esse fim. Não podemos esquecer que, em conversa com seus apoiadores no início deste ano, o presidente da República defendeu separar alunos “inteligentes” dos “atrasados”, termo que ele atribui a alunos com deficiência: “Você tem um garoto muito bom, que pode colocar na sala com melhores. Você tem um garoto muito atrasado, faz a mesma coisa. O pessoal acha que juntando tudo vai dar certo. Não vai dar certo. A tendência é todo mundo ir na esteira daquele com menor inteligência. Nivela por baixo. É esse o espírito que existe no Brasil”, disse ele, do alto de seu ‘saber pedagógico.’ Felizmente o malfadado decreto nº 10.502/20 por ele assinado e que estabelecia novas regras para a educação de alunos com deficiência foi suspensa a partir de uma ação de inconstitucionalidade apresentada pelo PSB argumentando que o decreto constituía verdadeiro retrocesso em relação à educação especial no Brasil, na medida em que feria artigos da Constituição Federal por favorecer a segregação de pessoas com deficiência. Por determinação daquele instrumento legal o governo federal, estados e municípios deveriam oferecer “instituições de ensino planejadas para o atendimento educacional aos educandos da educação especial que não se beneficiam, em seu desenvolvimento, quando incluídos em escolas regulares inclusivas e que apresentam demanda por apoios múltiplos e contínuos”. Especialistas da área consideraram que a alteração representa um retrocesso em uma luta de 30 anos pela inclusão social e entendem que o novo decreto enfraqueceria o direito de a pessoa com deficiência frequentar a escola comum. No entendimento do ministro Dias Tofolli, esse decreto poderia servir de base a políticas que fragilizam o “imperativo da inclusão” de alunos com deficiência, mudando a regra adotada desde 2008 com a adoção da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI), bem como a Lei de Inclusão sancionada em 2015 pela presidenta Dilma Roussef. A decisão de Tofolli foi submetida ao plenário do STF no dia 11/12/20 que, por maioria de votos, referendou medida cautelar para suspender o decreto do governo Federal. Prevaleceu no julgamento o voto do relator, ministro Dias Toffoli para quem as regras constitucionais e infraconstitucionais prevêem “absoluta prioridade a ser concedida à educação na rede regular de ensino“, devendo ser este o ponto de partida das políticas educacionais a serem adotadas pelo Poder Público. O relator foi acompanhado pelos ministros Alexandre Moraes, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, sendo vencidos os ministros Marco Aurélio Mello e Nunes Marques. Na verdade, presenciamos no país um embate entre movimentos que foram fundamentais para fomentar no imaginário popular uma cultura inclusiva no combate às marginalizações e movimentos que impuseram uma cultura excludente e de desigualdade. Desde as pequenas práticas do setor privado no Brasil Império, as técnicas higienistas das décadas de 1920 e 1930 (com a saúde sendo parte de uma proposta pedagógica) até chegarmos à promoção de uma educação que integrasse alunos deficientes nos ambientes de educação regulares. As leis impostas como estratégias de imposição na relação entre a esfera governamental e os sujeitos de ação caminham pari passu com as táticas de sobrevivência dos menos favorecidos em forma de lutas por uma educação mais humanizada e inclusiva. Na Era Vargas o ponto culminante da reforma educacional deu-se com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 14 de novembro de 1930, por meio do Decreto Lei nº 19.402. Esse órgão ficaria responsável por organizar o projeto pedagógico tanto no Governo Provisório (1930-1934) quanto no Governo Constitucional (1934-1937) e, principalmente, no Estado Novo (1937-1945). Nessa época entendia-se que Saúde e Educação eram setores indissociáveis.  Entretanto, o entendimento sobre educação ainda não era o que temos hoje – uma educação pública e para todos. As iniciativas nesse contexto tinham então caráter privado e clínico-escolar e acabaram fortalecendo instituições específicas de atendimento educacional especializado – as escolas para surdos e cegos criadas ainda no Império, como o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) e o Instituto Benjamin Constant (IBC). Nessa perspectiva destacaremos as principais leis que propuseram mudanças significativas e marcaram o cenário da política pública com relação à Educação Especial. A primeira LDB (Lei nº 4.024/61) garantiu o direito dos “alunos excepcionais” à educação, estabelecendo em seu Artigo 88 que para integrá-los à comunidade, esses alunos deveriam enquadrar-se, dentro do possível, no sistema geral de educação. Podemos perceber, nesta lei, dualidades em seu entendimento, tendo em vista que por “sistema geral” de educação poderíamos ter tanto os serviços educacionais comuns como os especiais, mas pode-se também compreender que, quando a educação de deficientes não se enquadrasse no sistema geral, deveria constituir um especial, tornando-se um sistema paralelo. Em 1972, o Conselho Federal de Educação em Parecer de 10/08/72 definiu a “educação de excepcionais” como educação escolar. Em seguida, Portarias ministeriais definiram a clientela da educação especial, posicionando-se segundo uma concepção diferente do Parecer, deixando clara a visão terapêutica de prestação de serviços às pessoas com deficiência e elegeram as questões corretivas e preventivas em detrimento da promoção da efetiva educação escolar. Atualmente, percebemos essa dificuldade do poder público, sobretudo de legisladores, em distanciar a Educação Especial (escolar) de atividades relacionadas ao atendimento clínico e a assistência social em propostas que visam à inclusão. Tal dificuldade fortalece a perspectiva das instituições de Educação Especial, criando narrativas que abrem brechas para a disputa do financiamento público por parte de instituições privadas. Avançando, temos a LDB (Lei nº 9.394/96) que destina o Capítulo V inteiramente à educação especial, definindo-a no Artigo 58 como uma “(…) modalidade de educação

Por uma política de educação especial inclusiva Read More »

Domingo de sol

Por Miriam Waidenfeld Chaves   O dia amanheceu espetacular na Barra da Tijuca. Linha do horizonte nítida. Céu azul e mar flat. “Sinal de praia lotada. O bicho vai pegar hoje!”, pensa Soraya, animada. Da varanda de seu apartamento, com um misto de suco verde e energético na mão, vai até o seu closet: biquíni branco meia-taça ou vermelho cortininha? Olha para o espelho e sente orgulho do que vê. Seu marido ama seu corpo. As amigas o invejam. Os homens, de soslaio, comem a sua bunda. E enquanto espera Jorge voltar da academia, posta sua primeira foto do dia no Face: de biquíni vermelho com Paçoca nos braços, seu poodle, de três anos. Dá alguns likes, mas não para Carla. Tem certeza de que, na moita, ela dá mole para Jorge. “Uma piranha”, pensa, ao olhar para sua foto almoçando em um shopping no dia anterior. Soraya nasceu e  cresceu em Copacabana. Filha de militar, sempre gostou de malhar e atirar. Casada, mudou-se para a Barra, e junto com o marido abriu um centro de depilação que deu super certo. Da varanda, admira a praia lotada. Do Carmo já montou sua barraca e dela comanda seus ajudantes. “Aquela gorda é muito arretada. Tem muito homem com medo dela”, conclui Soraya, que de certa forma desenvolveu uma amizade por ela. “Porra, cadê o Jorge? Deve ter sido enredado por alguma piranha.” Passa um áudio para ele e vai até o closet outra vez.  Escolhe uma saída de praia recém- comprada pela internet: branca, de renda transparente. Pega sua bolsa de praia e coloca suas bugigangas nela: canga, necessaire, água termal e seu novo brinquedinho, um taurus cor-de-rosa que Jorge lhe deu de presente de aniversário. Atravessa a rua, cumprimenta Do Carmo na areia e segue ao encontro da turma. – Oi, oi, diz, ao mesmo tempo em que nota um grupo de pivetes falando alto e gesticulando bem perto dela: – Putzzz, maloca aí o bagulho, cumpade…tá dando mole, diz Cabeção. – Calma aí, responde Pinguela, raquítico que nem ele só. Soraya lança um olhar enviesado para o grupo e identifica Cabeção olhando para ela fixamente. “Caraca!”, repete para si, ao se lembrar dele no aniversário de Sara, no Bar do Nelson. Encarando-o, pergunta para as amigas: – Não encontraram um lugar melhor para ficar? – Não reclama e senta aí. Cadê o Jorge? – Na academia. Já, já chega. Responde, sem tirar o olho do grupo, principalmente de Cabeção. – Cara, você tá dando bandeira. Para de olhar praquele ali. – Você não sabe de nada, Bia. E continua:  “O churrasco tá confirmado?” Soraya, além de ser conhecida como a gostosa do pedaço, também é famosa pela sua impulsividade. E não tem medo de marmanjo. Acredita que é por isso que admira Do Carmo. À distância, claro. A água está espetacular. Algumas piscininhas. O frescobol e até umas rodas de altinho movimentam a beira d’água. Todos se divertem. Apenas Soraya está atenta. Um olho sorrindo e o outro em Cabeção, que também está com as butucas nela. De repente ele, feito um bife à milanesa, se levanta, sacode a areia do corpo e voa até o mar. Mergulha, dá uns caldos nos pivetes, joga Pinguela para o alto e espirra água para todo lado. Os bacanas se afastam, mas ele  continua mesmo assim, para alegria do garoto. Na zoeira, esbarra em Soraya, que está saindo da água. Quase a derruba. Se encaram  e se devoram.  “Insolente”. “Lembrei de tu, gostosa.” Da água até as amigas, Soraya, em segundos, recorda-se daquela noite no Bar do Nelson. Ela quase gozando. Ele puxando seu cabelo com força, sufocando-a. “Esse filho da puta tá irreconhecível. Favelado! Quem ele pensa que é? Mas, que essa loucura foi boa, não  tenho dúvidas”, pensa com ódio. Lambe uns pingos de água salgada que escorrem pela boca, passa as mãos nos cabelos molhados e fecha os olhos. Ao abri-los, enxerga Cabeção esquadrinhando-a com um corpo que lhe diz, descaradamente, “vem”.  “Esse Zé Mané não tem noção, mesmo!” Duas da tarde. Milímetros de areia disputados a tapa. Calor infernal. Ambulantes de todo tipo. Algazarra geral. Enfim, uma Sodoma e Gomorra de corpos nus, se exibindo num domingo de sol. Soraya, as amigas, Jorge e os rapazes da rede de volêi, todos com suas cervejas geladas, definem os pormenores do churrasco para o próximo feriado. Ao lado, a turma de Cabeção divide unzinho, meio na encolha. E, espremidos diante da falta de espaço, os dois grupos parecem fazer parte da mesma galera. Nessa confusão dos diabos, ao sentir o cheiro de favela no ar, Soraya redobra sua atenção. Cabeção não tira os olhos dela. Pinguela, por sua vez, sentado perto de Bia, sorrateiro, mete a mão leve em sua bolsa, agarra uma carteira e faz cara de felicidade. Suavemente, retira seu prêmio da sacola, quando se dá conta que Cabeção deixou-se cair sobre ele para acobertar seu mirrado esqueleto. Escuta um estampido e, imediatamente, sente  um líquido vermelho e quente escorrer até o seu ombro. Sem entender, sai debaixo de Cabeção e olha para a moça de biquíni vermelho com um revólver cor de rosa nas mãos. E, aí, enxerga o pai se estrebuchando na areia. É um corre, corre e uma gritaria de fanáticos.  Em torno dele, alguns banhistas berram “ladrãozinho”, “ladrãozinho de merda”. As Guardas Municipais chegam  e todos apontam para ele: – Foi ele.  Estava bem ali, afanando uma carteira. Pinguela, ainda zonzo, olha novamente para Soraya que o encara. As guardinhas o seguram, enquanto Do Carmo chega desesperada  e o abraça. Encara Soraya, ainda com a arma na mão, e entre dentes fala baixinho: – Sua cadela, tu tá prometida. Soraya sorri, abraçando Jorge.   Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ.                

Domingo de sol Read More »

Rolar para cima