Construir Resistência

9 de agosto de 2021

Cortinas de fumaça

Por Sonia Castro Lopes Golpes militares com tanques na rua, definitivamente, passaram de moda. Os nostálgicos golpistas têm hoje outros meios de impor suas idéias e divulgar suas crenças. O pior de tudo isso é que tais idéias e crenças ainda encontram ressonância em ignorantes que, desacreditados nas instituições democráticas e na força do diálogo, seguem o líder como um gado submisso. Pasmem, leitores, mas cerca de 20 a 25% do eleitorado brasileiro assim procede. Em que pese a debandada de ex-apoiadores desiludidos com a débâcle da Lava-jato e a desmoralização do juizeco parcial, a descrença dos empresários com as promessas de políticas privatistas e a  imprensa hegemônica que bate diariamente no governo que ajudou a eleger, pelo menos um quarto da população ainda se veste de amarelo e aposta no fürher tupiniquim a quem chamam ‘mito.’ A crise institucional está posta. A incontinência verbal do presidente, que não poupa ofensas às instituições democráticas, é uma amostra do desespero que assombra o governo. E é para desesperar mesmo: uma pandemia que, longe de ser debelada, deixa um legado de quase seiscentas mil mortes, o retorno de Lula e a ascensão de  quadros progressistas no cenário político, o excessivo número de desempregados, a situação de miséria a que estão condenadas as camadas empobrecidas da população, o descaso com a educação e a cultura…  A tudo isso se acrescenta a CPi da Covid que pode até não dar em nada, mas tem feito um barulho ensurdecedor ao denunciar a corrupção que corrói a reputação de militares e assessores de um ministério que deveria cuidar da saúde e não o fez. Aos seguidores do capitão resta recolher-se às redes sociais na tentativa de divulgar mentiras, assim como fizeram na campanha de 2018. A nova ‘mamadeira de piroca’ é a campanha pelo voto impresso. Essa é a nova pauta imposta pelo governo. Mais um factóide, mais uma cortina de fumaça para desviar a atenção da população de questões realmente graves. Os articulistas políticos e formadores de opinião têm caído nessa emboscada. Os políticos, estrategicamente colocados em postos-chave para livrar o governo de um possível impedimento, procuram administrar a crise e agradar o ‘chefe’ empurrando com a barriga uma reivindicação natimorta ou engavetando processos que o incriminam.  Até quando? Quem assistiu Ciro Nogueira, atual chefe da casa civil, beijar as mãos de Dilma há cinco anos e hipotecar-lhe solidariedade sabe muito bem que esses novos aliados não são confiáveis. Quando novos ventos soprarem, lá se vão eles como andorinhas em bando voejar em outras freguesias. E segue o barco. O projeto do voto impresso vai a plenário mesmo tendo sido derrotado na Comissão da Câmara. Virada a página, outro factóide surgirá, com certeza. E assim, cercado de ‘aliados’, com as instituições devidamente aparelhadas, o governo sobrevive, quiçá até o final do próximo ano. Uma nova bolsa família rebatizada tentará cooptar os mais pobres que já batem em retirada. O aumento do PIB e o revigoramento da economia pode até iludir os desavisados, mas a fome continuará a bater na porta dos que nunca se beneficiarão com esse suposto crescimento. A saída? Ir pra rua, denunciar factóides, tentar desmentir as fake news que circulam nas redes sociais. Cabe à grande mídia escapar das armadilhas, separar o joio do trigo e expor ao público as entranhas desse país apodrecido. Zero espaço para as novas mamadeiras de piroca, sob pena de não acordarmos desse pesadelo.  

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