Construir Resistência

3 de agosto de 2021

Padre Lino e a ossada das crianças de Belford Roxo

Por Vinícius Carvalho Um dos crimes que mais perturbavam a cabeça do brasileiro que ainda possui capacidade de se indignar foi, parcialmente, elucidado hoje: o desaparecimento de três crianças no município de Belford Roxo, desde o último dia 27 de dezembro. Os meninos são Lucas Matheus, de 9 anos, Alexandre Silva, 11, e Fernando Henrique, 12. As ossadas foram encontradas hoje pela manhã, após a denúncia do irmão de um dos supostos executores num, rio/valão em uma das partes mais miseráveis de uma das cidades mais miseráveis da região sudeste. O denunciante avisou ainda que o motivo do crime foi torpe. As crianças foram acusadas de sumir (furtar) com uma gaiola e com um passarinho dentro dela. A gaiola pertencia ao parente de um traficante local que, ainda de acordo com a denúncia, executou e ocultou as três crianças. Isso mesmo, por causa de um passarinho e uma gaiola. Mas o que este crime fala sobre nós para além da brutalidade? Venho acompanhando este caso com muita atenção desde o primeiro momento em que li a notícia e quando se fala em violência urbana no Rio de Janeiro, tornou-se lugar comum, uma espécie de cloroquina, falar que toda ela é praticada por alguma milícia ou pelas polícias. O problema é que a sociedade não é preto no branco, não é Deus e Diabo, Bem e Mal, tão somente. A sociedade é uma grande massa cinzenta e gelatinosa. As pessoas simplesmente esqueceram que existe latrocínio e tribunal do tráfico nesse país, e o que fez com os setores populares da sociedade civil, no geral, guinasse à extrema-direita e elegessem um projeto político que prometeu violência policial sem precedentes (Bolsonaro) é, também, o discurso do “bandido bom é bandido morto”. De uma forma geral, num estalar de dedos, como num passe de mágica, após o assassinato da Marielle, ficamos condicionados – para demonstrar posição política e distanciamento ideológico daquilo que repudiamos – a falar que absolutamente toda a violência brasileira, todos os quase 70 mil assassinatos anuais no país, são praticados pela polícia ou pela “milícia”. Erramos, e aí começamos a perder a capacidade mínima de dialogar com a população, a “zona cinzenta”. Maior vítima de todo esse processo. Eu conheço o município de Belford Roxo. Um tio PM morava na mesma localidade onde a ossada dos meninos apareceu. Esse meu tio, mesmo sendo da corporação polícia militar, teve que fugir, abandonando a sua casa, que era própria e foi construída do chão por ele, por conta do tráfico local que sabia que ele era PM e, uma hora ou outra, ia executá-lo ou executar o seu filho, meu primo. Um drama cotidiano das nossas cidades. Hoje, a notícia que se tem é que a sua antiga casa foi invadida pelos traficantes e virou boca de fumo. Por que conto isso? Porque a sociedade, como eu disse, é cinza. O PM, meu tio, é eleitor do PT, os traficantes (ligados ao Terceiro Comando) que invadiram a sua casa, espalharam grafites do Bolsonaro e bandeiras de Israel pelo bairro. É um padrão? Não, mas não existe padrão no limbo, no umbral da sociedade. A forma como a política se organiza no UMBRAL é diferente da forma como ela se organiza nos fóruns do DCM, Brasil 247, Revista Fórum, nos bairros da Tijuca, Jardins, Laranjeiras e Brooklin. As esquerdas precisam compreender isso. Agora, o que tudo isso tem a ver com o Padre Lino? Na última terça-feira eu entrevistei o Padre Lino, um senhor italiano com cerca de 80 anos de idade, que exerce a sua cátedra na Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro da Aldeota, classe alta de Fortaleza. Ao efetuar uma crítica a Jair Bolsonaro, o padre foi atacado de forma cruel durante a missa e os ataques de ordem pessoal e ameças de todos os tipos prosseguiram. A ponto do mesmo solicitar entrar no programa de proteção de testemunhas da Polícia Federal. Uma das poucas vezes que senti vontade de chorar entrevistando alguém foi quando uma pessoa do público me pediu para perguntar ao padre se alguém da igreja católica, praticamente vizinha à sua, uma comunidade chamada “Shalom”, de linha “carismática” lhe prestou algum apoio ou solidariedade, o padre balança a cabeça, faz um silêncio muito triste e afirma, “não, meu filho, não….eles prestaram – em nota – solidariedade aos fascistas que me atacaram”, e prosseguiu, “eu vi o final do fascismo na Itália, na década de 40, era uma criança, não imaginava que passaria aqui no Brasil o mesmo que meus parentes passaram por lá”. Conversava com o padre e, sem querer, o entrevistei com uma camisa de banda de death metal chamada “Death Breath”. Uma camisa horrorosa cheia de figuras de zumbi. Fiquei um pouco sem graça devido a pouca liturgia de minha parte naquela entrevista, pedi desculpas e disse que era agnóstico. O padre foi enfático na resposta, “meu filho, no céu que eu acredito, muito católico que tem calo nos joelhos (de tanto rezar de joelhos na igreja) e vai a todas as missas, não vai entrar…e tem muito ateu e comunista que vai entrar sim”. Lembrei então do trabalho realizado pela antiga Teologia da Libertação no então “umbral” político relatado na primeira parte deste texto. A região de extrema pobreza. O meu primeiro contato com a miséria extrema foi numa região conhecida como Lixão do Gramacho. Ali eu vi uma cena bizarra que me atormenta e me dá pesadelos até hoje; um policial civil conhecido da área que comandava um esquema de prostituição infantil, saindo de dentro de uma casa de paliçada abotoando a calça com a barriga de fora, provavelmente tinha acabado de consumar algum ato criminoso com alguma adolescente – alguma “funcionária”. Eu não fui lá fazer trabalho social, eu não fui lá como um “colonizador” levando a palavra de São Marx. Eu não fui lá fazer safári social, levando a “iluminação” para aquelas pessoas “atrasadas”. Até porque eu não sou otário, eu jamais faria esse tipo de abordagem com uma gente

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As luzes se acenderão e, novamente, se ascenderão

Por Luis Otávio Barreto No ensejo da inauguração do #MuseudaLíngua Portuguesa, me lembro de como as pessoas atacavam o presidente #Lula por seu português popular. Os membros mais esnobes de uma elite tropical e tantos outros arrogantes – intelectuais de almanaque – além, claro, dos soberbos pobres que comem mortadela e arrotam peito de ‘piru’, gostavam de ‘catar’ erros nos discursos – MARAVILHOSOS, AI QUE SAUDADE – do presidente Lula. Também me lembro de um professor – ai coitado, esse muito infeliz! Falta-lhe um canavial de … – dizia, com certa empáfia, que se ele falasse português erudito, nós não entenderíamos – eu se fosse o professor de português da época, iria lá tirar satisfações; – Vem cá, que porra é essa de você dizer que meus alunos não vão entender teu português erudito?! Enfim…deixemos o CB no passado. Sem o uso de palavras rebuscadas, comunicando-se diretamente com TODOS – sim, com TODOS – o presidente Lula foi recebido quase que no mundo inteiro, respeitado, conhecido, honrado! O homem, quando apanha um microfone, faz cessar toda a barulheira! Todos querem ouvir! Até aqueles que lhe são contrários! Lula, com seu português, foi o presidente que mais valorizou a educação, criando centenas de institutos federais, universidades públicas, o Pronatec… #Temer, com suas mesóclises, com seus discursos verborrágicos, nada fez, #Bolsonaro, com sua língua podre, com sua fala – QUE NÃO É POPULAR! NÃO CONFUNDAM CHULO COM POPULAR! NÃO CONFUNDAM ESCATOLOGIA COM ESPONTANEIDADE, NÃO CONFUDAM FRANQUEZA COM BELICOSIDADE – o que fez foi é destruir! E segue destruindo! Desde 14 a educação vem sofrendo sucessivos ataques e golpes pesadíssimos! Seja com os constantes cortes de verbas, com o sucateamento da máquina da educação, com a desvalorização do magistério, com os ataques aos pesquisadores, com a destruição planejada de museus… Alguém disse que enquanto se inaugurava o museu da língua portuguesa, com a presença de autoridades de outros países, o presidente estava montado numa moto, batendo bunda… ora, mas não era da ordem do óbvio?! Não há que se esperar quaisquer acenos ou movimentos positivos a qualquer manifestação das culturas da inteligência, das ciências…ao contrário! Fuga! Foge-se daquilo que representa riscos, desafios… combate-se aquilo que liberta o povo… Escrevi muito, isso tudo poderia ser resumido no seguinte: Odeiam Lula, porque Lula deu ao povo a condição de se educar, deu vez e deu voz. Lula vem aí! Tremei, ignorantes! As luzes se acenderão! As luzes ascenderão, outra vez! #Lula #Lula2022 #LULAPRESIDENTE2022   Luis Otavio Barreto é músico pianista e professor de língua portuguesa.  

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Depois de ação do TSE, Lula diz que instituições “estão no caminho para corrigir insanidades do Bolsonaro”

ConstruirResistência recomenda uma leitura atenta: Depois de ação do TSE, Lula diz que instituições “estão no caminho para corrigir insanidades do Bolsonaro” Pelo #twitter, #Lula escreveu: Não é possível que Não é possível que uma sociedade seja organizada com base na mentira. Assim você não constrói fraternidade, não constrói paz. As instituições estão no caminho certo pra corrigir essas insanidades do Bolsonaro. Selecione o endereço eletrônico e aperte o botão do lado direito do cursor para ler a notícia na íntegra: https://www.brasil247.com/poder/depois-de-acao-do-tse-lula-diz-que-instituicoes-estao-no-caminho-para-corrigir-insanidades-do-bolsonaro?amp=&utm_source=onesignal&utm_medium=notification&utm_campaign=push-notification

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Torto Direito

Por Ângela Bueno ” A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. (Guimarães Rosa) Tenho andado desinquieta com os rumos que tem tomado a vida no Brasil. Nas poucas vezes em que saio às ruas me deparo com um grande número de pessoa pedindo esmolas, dormindo nas calçadas. Um cenário que havia desaparecido da minha vista nos governos do #PT. Lembro da primeira vez que meu neto, hoje com cinco anos, andando comigo nas ruas um pouco antes da #pandemia, ao se deparar com um mendigo dormindo na calçada me perguntou: Vovó, por que ele não está dormindo na caminha dele? Ele, pequeno, viu que não era natural ter uma pessoa dormindo na rua. O pós golpe de  2016 trouxe as pessoas que passam fome, que estão sem emprego, sem moradia, de volta para as ruas. Trouxe o Brasil de volta ao #MapaMundialdaFome. Isso não é pouca coisa. É um retrocesso que é  retratado nas  ruas, para os que têm olhos pra ver.  Algumas notícias que tenho lido ultimamente têm colocado  minha esperança debaixo da sola do sapato. Ainda bem que, como diz meu companheiro, la donna é mobile, pois  tenho por hábito ser pessimista no pensamento e otimista na ação. Esse meu jeito de ser uma metamorfose ambulante deixa uma certeza de que,  amanhã, eu volto a esperançar.    Vou destacar aqui duas  notícias de embrulhar o estômago:  – com a #pandemia e o atual governo, o 1% mais rico da população abocanhou 49,6% da riqueza do Brasil. Isso de acordo com o #RelatórioRiquezaGlobal, publicado todo ano pela #CreditSuisse (Brasil 247, 24/06/2021).  Essa pandemia escancarou que o capitalismo é uma máquina de engordar os milionários e moer as outras gentes. – O epidemiologista Pedro Hallal, na #CPIdaCovid, mostrou um dado que dói na alma: em cada 5, 4 mortes poderiam ter sido evitadas se estivéssemos na média mundial. Isso se o Governo tivesse se comportado como um aluno médio, que faz o mínimo para passar de ano (não fui eu que fiz essa metáfora. Foi o próprio epidemiologista em seu depoimento), teríamos poupado 400.000 vidas!!! (fonte: TV Senado-CPI da Pandemia- # SENADO CONTA A COVID). Só esse depoimento seria, no meu entender, suficiente para que se parasse tudo e que esse governo fosse afastado e respondesse por tantas mortes desnecessárias se tivesse comprado vacina em tempo hábil,  entre outras condutas preconizadas pela #OMS no combate à pandemia da#Covid-19. Somado a essas notícias outras tantas já saíram, que mostram a corrupção nas compras de vacina, preços superfaturados e outras coisas mais que levaram o povo de volta às ruas contra tudo que está acontecendo e pedindo #ForaBolsonaro.   Aí eu pergunto até onde irá a surdez, a leniência, a conivência dos outros poderes legislativo e judiciário com  o poder executivo e com a vida do povo brasileiro? Aqui caberia a mídia, o empresariado. .. mas irei me ater aos poderes da república brasileira.  Pensando sobre essas questões reli o texto de #Freud “Por que a Guerra?” (1932). Esse texto foi uma resposta à carta que #Einstein lhe endereçou  quando, em 1931, a Liga das Nações solicitou que intelectuais trocassem cartas sobre temas de interesse geral dos povos. Einstein, um dos primeiros a ser convidado, escolheu Freud como seu interlocutor. Recortei as partes que dizem respeito ao surgimento do direito na visão de Freud, no intuito de buscar entender a  questão que formulei acima sobre a leniência dos poderes executivo e judiciário com todo esse desgoverno, tão nocivo ao povo e ao Estado brasileiro.  Leia e diga se concorda ou não comigo. Freud nos diz que existe uma relação intrínseca entre direito e violência, ainda que à primeira vista pareçam termos opostos. O direito surge em resposta à violência dos fortes sobre os mais fracos. Era através do emprego da violência que se resolviam os conflitos de interesse entre os homens: que no primeiro momento era física e direta.  Vigorava naquela época a  lei do mais forte. Com a introdução das armas a  superioridade intelectual entra em jogo. Mas o propósito da luta permanece o mesmo: a parte perdedora tem que abrir mão de sua reivindicação ou posição. Isso é alcançado de modo mais eficaz e completo se a violência elimina, pela morte, o seu adversário. Dessa morte são advindas duas vantagens: – o inimigo não vai retornar sua hostilidade ; e, sua morte, certamente, irá desestimular os outros a seguirem o seu exemplo. Isso vimos na história recente nas ditaduras militares da América Latina e todos os países, onde vigoram ou vigoraram regimes ditatoriais.  Outra maneira de lidar com o inimigo vencido, segundo o autor, é  que ele pode ser também subjugado,  amedrontado e deixado com vida, para ser empregado em serviços úteis. Essa também é uma saída que a história nos mostra ser bastante utilizada, para tratar povos perdedores. Lembrei  que muitas vezes presos políticos, como #Mandela, por exemplo, cumprem uma rotina de trabalhos forçados  em condições sub humanas, cujo proposito final é humilhar,  acabar com a saúde do perdedor, além de quebrar seu espirito.  A história é cheia de exemplos de vencidos que se tornaram escravos, estados totalitários que eliminam seus opositores, … Freud nos diz que, ao poupar o inimigo, o vencedor sacrifica parte de sua segurança, pois pode haver um desejo de vingança por parte do vencido. A violência, para o autor, só poderá ser derrotada pela união de vários fracos e o poder daqueles unidos passa a representar o direito, que é o poder de uma comunidade. Todavia dois fatores são fundamentais para que se dê essa passagem: a coação da violência e as identificações entre os membros da comunidade.     Essa união tem que ser constante e duradoura. Só desse modo se consegue a transferência de poder de um forte para as Leis, que vão reger a comunidade. Abro outro parêntese aqui para reforçar que é  pela união dos mais fracos, identificados entre si, que  se passa para o regime da

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