Construir Resistência

30 de julho de 2021

A esquerda brinca com fogo

Por Simão Zygband   O episódio da queima da estátua do bandeirante Borba Gato dividiu opiniões, corações e mentes. Muitos julgaram ser um ato de coragem realizado por um emergente grupo denominado Revolução Periférica, cujo objetivo era destruir um monumento de gosto duvidoso encravado na entrada do bairro de Santo Amaro, na zona Sul de São Paulo, que homenageava um genocida que escravizou e assassinou indígenas.  Para azar, o grupo foi facilmente identificado (utilizou uma camioneta de carreto com número de celular pintada no baú aparecendo em um vídeo gravado durante a ação) e um dos líderes, que é também liderança dos entregadores antifascistas, Paulo Roberto da Silva Lima, o Paulo Galo, teve prisão preventiva decretada, juntamente com sua esposa, Géssica, que sequer participou do ato. Eles respondem por incêndio, associação criminosa e adulteração de placa de veículo.  Um dos defensores do ataque à estátua do Borba Gato foi o jornalista Breno Altman, tradicional quadro da esquerda paulista. “Foi um ato de guerra cultural. Nos tempos das redes, e a extrema-direita percebeu isso faz tempo, não há espaço para regras civilizatórias. A ação tem que visibilizar uma pauta e defender um ponto de vista com toda a radicalidade. O convencimento vem depois”, disse ele. Outra vertente (na qual eu me incluo)  considerou a  atitude impensada e premeditada, que acaba colocando gasolina em um momento em que os nervos do país estão à flor da pele, seja pela grave crise econômica, pelo magnitude das mortes pela Covid-19 ou por dar gás para a caldeira claudicante, neste momento, da extrema-direita de Jair Bolsonaro. Um dos principais representantes desta visão, que considerou precipitada a ação do grupo Revolução Periférica, foi o também jornalista Alceu Castilho, do site De Olho nos Ruralistas, no texto denominado “Preparem-se: vai faltar pneus”.   Veja o que ele escreveu, cujas ideias estão assim resumidas “O que defende tal movimento (o Revolução Periférica)?  Estaremos apoiando exatamente o que? Ninguém cogita a hipótese de um Borba de Tróia? A Revolução Periférica sabe quem promove as violências contra indígenas neste país? São milhares, dezenas de milhares de protagonistas, dos fazendeiros aos meios de comunicação. Passando pelo Congresso e cada órgão público deste país (prefeituras, Assembleias). Pelo capital, pelos banqueiros. Com jagunços, com polícia, com tudo. Um sistema complexo. Vão botar fogo em tudo, em todos eles?”, questionou ele. A direita contra-ataca Os apoiadores do Revolução Periférica (cujos líderes precisam ser libertados, pois assumiram a autoria do ato e devem responder em liberdade), possivelmente não tenham percebido o momento explosivo que o país atravessa. Talvez não fosse a hora de realizar ação isolada e colocar fogo na fornalha golpista. Há quem ache importante praticar a ação e não permitir que a cidade de São Paulo homenageie um “genocida” e nada faça contra isso. Aparentemente, como  resposta ao ato contra a estátua de Borba Gato, grupos não identificados picharam de vermelho a pedra que marca o local onde foi assassinado em uma emboscada em São Paulo o líder revolucionário Carlos Marighella e também a escadaria que homenageia no bairro de Pinheiros a vereadora do PSOL carioca,  Marielle Franco, assassinada também em uma emboscada armada pela extrema-direita.  Para piorar, também ardeu em chamas o acervo da Cinemateca Nacional, localizado na Vila Leopoldina, em um incêndio em que ainda não foram divulgadas as causa, apesar de também haver suspeita de que tenha sido provocado. Enfim, nada leva a crer que, neste momento, atitudes de força contribuam com o país. Todos devem estar empenhados em garantir as eleições de 2022, já que a extrema-direita, que tende a sair derrotada nas urnas, dá mostras que não pretende aceitar o resultado que não seja a continuidade do desgoverno fascista.   

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Salvador – sonhar é preciso

Por Beatriz Herkenhoff É possível ser feliz na Bahia! Temos que sonhar permanentemente! Deixar que o desejo nos conduza na construção de planos e projetos! Esperançar a cada novo amanhecer! Renovo diariamente minha gratidão por estar viva e contribuir com um mundo melhor através de gestos concretos de amor, de resistência, de indignação, de cuidado, de oração, de empatia e de solidariedade. Fui muito respeitosa em relação aos protocolos de isolamento social no enfrentamento da #Covid-19. E, nesse instante, imunizada, permito-me sonhar com uma nova viagem. Acredito que acontecerá quando a população estiver toda vacinada. Mas, vamos vislumbrando um futuro onde ousaremos voar ao encontro daquilo que nos dá prazer e novos significados. Pode ser um lugar perto ou longe, de acordo com as possibilidades de cada um. O importante é viver novas aventuras em outras paragens. Decidi que o meu primeiro destino será Salvador (BA) porque é uma cidade que amo. Salvador foi a primeira capital brasileira (1549-1763). É plena de histórias. Possui onze fortes construídos para defesa em relação às invasões holandesas. A população, em sua maioria negra (82,1% de acordo com IBGE, 2017), exala beleza, gingado, simpatia, afeto e capacidade de acolher. O baiano é muito amoroso e alegre. Por isso, escolho estar com eles para renovar a minha fé na vida e no ser humano. A comida ocupa lugar central na Bahia e fala de pertencimentos, de lutas de um povo que resistiu para manter sua dignidade, cultura, crenças e valores. Na preparação de cada prato, acontecem lindas alquimias e metamorfoses. Tudo feito com muito amor e criatividade. As igrejas convidam a uma viagem no tempo. Salvador possui 372 igrejas católicas. São tão impactantes e lindas que o nosso ser se abre ao silencio, à contemplação, à oração e à reflexão. A riqueza religiosa se completa com as religiões de matriz africana. Praias Suas praias com águas quentes e transparentes inspiram para simplesmente ficar, admirar, sentir, relaxar, nadar, mergulhar e desligar. A Praia de Itapuã e Porto da Barra são as que mais me seduzem e encantam. Tive experiências fantásticas também no litoral norte da Bahia: Mangue Seco e Lagoa Azul (Baxio). Regiões com dunas, mar aberto e rios. Senti-me no paraíso! Museus e Igrejas Os museus de Salvador são densos e intensos. Resgatam a história do seu povo e as raízes da nação brasileira. A Barra tem um calçadão que acompanha a orla com muitos bares. Vale a pena visitar o Farol da Barra. O acervo é muito interessante e a vista do terraço é linda. O Pelourinho é tão mágico que dá para ir inúmeras vezes. Destacaria algumas igrejas impactantes: a Catedral (século XVII); a Igreja São Francisco (século XVII); a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (século XVIII). A Igreja e Convento Nossa Senhora do Carmo (século XVII). A Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia (século XVII). A Faculdade de Medicina é a mais antiga Instituição de Ensino Superior do Brasil (1808). Abriga o Museu Afrobrasileiro com diversas exposições e obras de arte que expressam a influência da cultura africana no Brasil. É o mais completo que já conheci. O Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, localizado no mesmo espaço, também é envolvente. O Museu da Misericórdia, além do belíssimo prédio da Santa Casa de Misericórdia, do século XVII, possui um acervo riquíssimo. O Solar do Ferrão é imperdível com preciosos acervos de Arte Africana, Arte Popular, Arte Sacra e Instrumentos Musicais Tradicionais. A Fundação Casa de Jorge Amado é uma instituição cultural com várias atividades e um núcleo de pesquisas com documentações sobre Jorge Amado, Zélia Gattai e a literatura baiana. Subam a ladeira do Carmo para admirar as construções antigas. O Carmo é semelhante ao Pelourinho, mas, é mais bucólico, menos explorado turisticamente, com moradores sentados nas calçadas; interagindo com quem passa. O Museu de Arte Sacra da UFBA é o maior centro de estudos de arte sacra da América Latina e o terceiro maior do mundo. Localizado no antigo convento da Ordem dos Carmelitas Descalços é deslumbrante! Todas as janelas avistam a baia de Todos os Santos. No corredor da Vitória visitem três museus fantásticos (depois das 14h): a Fundação Museu Carlos Costa Pinto; Palácio das Artes; Museu de Arte da Bahia (Casarão do século XIX). Restaurantes A gastronomia baiana faz a diferença com seus temperos, cores, cheiros e sabores. No Carmo sugiro almoçar no restaurante Ulisses. Tem uma vista linda para a Baia de Todos os Santos. Vale a pena provar a carne de sol com purê de aipim, purê de abóbora e castanha. Outro restaurante aconchegante e de qualidade é o Cadê que chama (comida caseira). No Pelourinho, o Restaurante Escola Senac oferece o melhor da culinária baiana (com opções a la carte e self service). Experimentem também um mal assado no CGC. No Elevador Lacerda provem os sorvetes artesanais da Acubana (tradicional sorveteria de Salvador). No Mercado Modelo tem dois restaurantes ótimos: Maria de São Pedro (primeiro restaurante de comida típica da Bahia, fundado em 1925). E Camafeu de Oxossi, os donos são de Angola e oferecem uma culinária baiana que mistura os sabores herdados dos índios, dos colonos portugueses e dos africanos. Peçam Camarão no coco. Rio Vermelho A Casa do Rio Vermelho de Jorge Amado e Zélia Gattai é pura beleza e magia. Chorei de emoção nas três vezes que visitei. E estou em contagem regressiva para voltar! Somos recebidos com os dizeres: “Se forem de paz, podem entrar”. E é essa paz que sentimos ao sentar no banco do jardim (com pés de manga, jambo, saputi, pitanga e tamarindo) onde Jorge e Zélia passaram 40 anos namorando e interagindo com o mundo. Vá sem pressa, desfrute da intensidade oferecida por cada cômodo. Sinta a energia dessa casa que foi sempre lugar de celebração da vida Zélia Gattai, além de uma linda escritora, era fotógrafa. Por isso, o acervo fotográfico é riquíssimo. Fotos de todas as viagens que fizeram (foram exilados em todas as ditaduras que se instalaram no Brasil). Jorge

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