Construir Resistência

12 de julho de 2021

É possível separar esporte de política?

Por José Marcos Thalenberg   No meu caso, depende do momento. Torci (e sofri) demais pela maravilhosa seleção de Telê Santana em 1982, ainda sob a ditadura. Não votei em FHC, mas torci demais também pela seleção campeã de 2002. Minha paixão pelo futebol e pela seleção foi maior do que possíveis capitalizações pelo general de plantão ou pelo dândi de Higienópolis. Ontem, não deu. Nem assisti ao jogo. Sequer foi um protesto: foi desinteresse, cansaço, tristeza. Eu e família vamos bem de saúde e sustento, mas não consigo ficar só nisso. Desgostoso com este momento do país, entregue à sanha de um bando de celerados. Em 1982, tínhamos Sócrates e a esperança da redemocratização a caminho. Em 2002, vivíamos sob a égide da Constituição Cidadã de 1988, o SUS já despontava como filho pródigo desta Carta, um Brasil mais justo se insinuava nesta democracia imperfeita. Hoje, temos Neymar e Bolsonaro. Não torci contra o Brasil ou a favor da Argentina, que fique claro. Após 530.000 mortos (e contando) e milhares de km quadrados devastados na Amazônia, cerrado e Pantanal (e contando), só espero que a justiça terrena tarde, mas não falhe. Guardo minhas energias para este embate entre civilização e barbárie, a mãe de todas as batalhas. E tenho certeza que voltarei a torcer pela amarelinha, como sempre torci. José Marcos Thalenberg é médico e doutor em Saúde Pública

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“Elize Matsunaga – Era uma vez um crime”, a dica do Ricardo Soares

Eliza Capai é diretora da série documental que estreou na Netflix “Elize Matsunaga – Era uma vez um crime “. Assisti satisfeito na noite passada porque um fraterno amigo (amigo também da diretora) me recomendou. Do contrário, não teria assistido porque a personagem da série nunca me inspirou nada a não ser pena. No entanto arrisquei, gostei e recomendo. A série, apesar de edição cronológica clássica e pouco inovadora, é muito bem montada, conduzida e finalizada com a ressalva de que, de certa forma, vitimiza a assassina esquartejadora brutal. Achei da maior competência, trabalho profissional executado por uma equipe feminina que nada fica a dever para os similares do gênero mundo afora. Um dos grandes méritos da direção de Eliza e do roteiro de Diana Golts é, além de mostrar a trajetória da assassina desde Chopinzinho (pequena cidade do interior do Paraná), revelar o entorno jurídico do caso com os advogados (de defesa e da promotoria) ávidos por holofotes e um legista esquisitão que não passa a menor confiança. Ou seja, a série mostra os seres humanos em sua pobreza de espírito e escolha de hábitos de vida imbecis como o casal assassina – assassinado que eram consumistas, armamentistas e adoradores de caça. Não há santos no enredo. A miséria humana sempre é mais vasta do que supomos. Assista e reflita.       Ricardo Soares é jornalista, escritor, produtor e crítico de arte.

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Mourão confronta Bolsonaro e diz que “as eleições serão realizadas”

Construir Resistência destaca: O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta segunda-feira (12) que as eleições presidenciais de 2022 serão realizadas mesmo que a proposta do voto impresso auditável não seja aprovada.  “As eleições serão realizadas”, disse Mourão em entrevista à CNN Brasil.  A declaração vai de encontro aos ataques feitos por Jair Bolsonaro contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em sua defesa pela mudança no sistema eleitoral. Na sexta-feira, ele fez ameaças à realização do pleito ao dizer que “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. Selecione o endereço eletrônico e aperte o botão do lado direito do cursor para ler a íntegra do texto publicado pelo #Brasil247: https://www.brasil247.com/poder/mourao-confronta-bolsonaro-e-diz-que-as-eleicoes-serao-realizadas?amp=&utm_source=onesignal&utm_medium=notification&utm_campaign=push-notification

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Autonomia militar

Por Virgilio Almansur Logo no início do segundo governo Dilma, que praticamente existiu entre novembro e dezembro de 15, houve um jornalista argentino que promoveu algumas entrevistas com um militar que solicitou sigilo completo e atestou: “… Muitos dos nossos estão ansiosos para retornar à política!” O repórter procurou argumentar que tal atividade seria contrária aos pressupostos da CF, ao que o militar insistiu numa contra-argumentação: “… Sempre estivemos na política! Não somos impedidos enquanto na reserva ou reformados. No entanto concordo: não deveria o da ativa manifestar-se, mas há uma carência enorme por um protagonismo que muitos entendem como diminuto”. Há sim uma grita pelo protagonismo e muitos militares acham necessária a presença nos desdobramentos e interesses nacionais. Acham-se os únicos conhecedores dessa pátria vilipendiada, estuprada por uma corja que desonra, há muito, a própria condição do ser militar ou mesmo de ser militar… Interessante que, desde 1.979, a anistia política se deu num entorno de baixa cultura de direitos humanos; houve uma percepção bastante acurada na academia, que era a de um fenômeno chamado de veto players que exigiu inúmeras dissertações que ilustraram os movimentos das forças armadas. Não havia, por parte dos militares, confiança naquela transição que os anos 80 iriam confirmar. No entanto, o IPEA nos informava, em 2012, que praticamente 45% da polulação brasileira nunca haviam ouvido falar em anistia. Essa constatação segue paralela a não punição de militar envolvido diretamente na tortura, em que pese devam todos os governos de exceção (os cinco generalecos de plantão nos 21 anos de desmandos, assassinatos e de cadáveres sonegados às famílias) serem responsabilizados. Crimes contra a humanidade já eram tipificados nesse período. Ainda não tínhamos clareza do quanto o criminoso ustra era tão querido pelos generalecos atuais que louvam a bandidagem e o milicianato. Despiciendo dizer que certa banalidade é observada entre os veto players que atuaram em especial nos anos 80, durante a Constituinte. Atuaram menos em 90 e voltaram, sem tanta garra,  no início dos 2.000. Mas voltaram como sempre voltam: buscam boquinhas, se insinuam por onde os civis roubam, falam bobagens nos clubes militares e de repente… Bem… Estão aí! O incômodo na tropa ignara chega com a aprovação da Comissão da Verdade. Mesmo antes do término do governo Lula havia ruídos que incensaram uma oposição que deveria barrar sua escolha sucessória, principalmente tendo em Dilma uma combativa guerreira contra a ditadura energúmena. As redes sociais revelaram várias patentes assanhadas que foram contaminando o ambiente dentro e fora dos quartéis. Os ataques à presidenta foram orquestrados. Muito bem orquestrados! A segunda década dos 2.000 é tomada por comichões confessáveis e inconfessáveis. Aos primeiros seguiam mensagens institucionais com sinais subliminares de insatisfação, quando as crescentes entrevistas à CV colocavam as ffaa num corner criminoso. Aos segundos, já que inconfessáveis, apareciam pela via indireta, por vezes impressa em noticiários que davam a entender desconfortos esparsos e sem assinatura. Formou-se um caldo de insatisfações, e, boa parcela da população, muito mal formada, foi cooptada por aqueles que sempre contaram com a inconsistência de nossa formação que já pratica anistia (amnestia, amnesia) a cada geração. Vivendo no meio universitário desde os 70 e entremeando o professorado, os 60 pareciam distantes; já nos 80 ignorava-se os 70. Uma amnésia quase flagrante era observada. Os 80 foram tão medievais que se perderam os liames históricos que nos permitiriam algum reconhecimento enquanto sujeitos de uma existência. Os veto players agiram e tiveram cobertura para um governo totalmente tutelado, Sarney, desembocando num representante oligárquico collorido que passa a agradar a política mainstream, mas frustra em menos de dois anos, abrindo possibilidades socio-democráticas não consistentes, cuja expressão neoconservadora tem sua paridade econômica no neoliberalismo. Os 80 parecem carregar um apagão da inexistência, nova amnésia e os 90 “dirão”, já em seus primórdios (menos de 5 anos, 3 governos serão esquecidos), que haveria de avançar; terão na adoção um tanto farsesca do real, a representação de que o novo século, XXI, será alvissareiro. Com a ascensão de Lula, nova amnésia toma conta e segue cada vez mais intensa até os dias atuais. Esquecera-se a base e esta deu o troco, lamentavelmente, pela acefalia reinante. Naquilo que deveríamos entender como construção dos mundos civil-militar, essa relação é amnésica por constituição dos players genéricos: sociedade civil no geral, que se nega ao trabalho histórico e às atuações militares que se comportam maçonicamente e geram comportamentos assépticos, distantes, são inconsequentes. Independente das motivações e dos desenvolvimentos que se seguiram e seguem historicamente, o exercício mnêmico é negado. Ivan Lessa cunhou, celebremente, o que Silvio Tendler aproveitou num de seus documentários: “de 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”. Tenho me dado conta que o repto é extremamente verdadeiro e que os recibos são passados em contextos variados como os que estamos vivendo atualmente. Nesse panorama, vê-se o sucesso dessa casta quase imperial, vivendo em palácios castrenses e dispondo de privilégios hierárquicos onde serviçais suboficiais ainda lustram coturnos oficiais. São estes a revelarem sucesso inconteste no abafamento de seus próprios crimes, eis que construíram relação de distanciamento do mundo civil, jamais visto como seus iguais ou detentores das especificidades ou excelências fardadas. É extremada a autonomia militar! Tanto antes, durante e após a ditadura explícita de 64-85. O nível baixíssimo de respeito — e mesmo cognição! — aos direitos humanos, carrega uma conexão com a pouca preocupação dessas mesmas forças, apoiadas por civis, que se armaram e se armam para destruir seus próprios irmãos,  outrora comunistas e terroristas, com os requintes das barbáries mais incivilizadas. Não há condescendência! Não se pode tolerar que esses, ainda sob influxos da abominável travessia de ustras heróis, estejam como fantasmas a nos rondar. Têm quer ser denunciados desde in illo tempore como in tempore opportuno. Cabe-nos assentar, para sempre, uma memória holocáustica e sem concessões! Agentes de Estado que cometem travessuras requerem curatela. Não adianta tutelar. (Tutela deve ser para os crimes tipificados. E estavam ali, nos estertores da ditadura encurralada, os crimes considerados

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Papos de livraria

Por Marlene Carvalho Eu estava no sebo Lima Barreto, escolhendo livros e chegou um homem alto, um pouco curvado, mas não era velho. Conversou com o dono da livraria sobre livros e autores. Falava sem afetação sobre suas leituras: Beckett, Nabokov, Flaubert, Balzac e outros. Fiquei impressionada com seu modo apaixonado, mas  direto e simples de falar de literatura e quase fui lá cumprimentá-lo. Ele saiu levando uma sacola de livros. Entraram então duas moças bonitas e elegantes que pediram ao livreiro livros para decoração. Ele perguntou: sobre decoração? Não, para decorar uma estante. O livreiro não demonstrou espanto e mostrou livros encadernados, edições antigas. Parece que era isso que as moças queriam, ficaram escolhendo. Nisso, entra uma mulher grisalha, tênis e roupa esportiva, um suéter pendurado no pescoço. Queria livros de Olavo de Carvalho. O livreiro lhe deu um, ela queria mais. Não tinha. Então ela disse que Olavo (se referia a ele como se fosse um primo) estava no Brasil para tratamento médico, o livreiro perguntou por que não se tratava no EUA, ela respondeu que Olavo prefere se tratar no Brasil. E comentou que vai haver muita procura dos livros de Olavo. Eu tive vontade de me meter na conversa, mas pensei melhor e fui embora com minhas compras. Um livro de contos de Fitzgerald (20 reais) e a fotobiografia de um nobre russo ( 20 reais), ambos em ótimo estado. Nada como passar meia hora numa livraria.   Marlene Carvalho é escritora e professora da UFRJ.

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