Construir Resistência

22 de maio de 2021

A mula de Balão

Por Sebastião Nicomedes Inspirado no Salmo 55 Diria que estamos na terceira onda. A terceira onda do movimento pentecostal. Falando das cruzadas evangélicas: a saga dos crentes Brasil afora levando aos grandes e pequenos municípios suas caravanas. Igual ao período das eleições, as caravanas faziam a festa da criançada. Corríamos pelo pasto, pela estrada de terra, atrás dos carros de alto falante e os aviões  Teco-Teco, embaixo das chuvas de panfletos. E os anúncios: Grande Comício! Grande concentração de curas e milagres com o reverendo tal. Crente era visto como ser de outro planeta. Andavam com a Bíblia debaixo do braço. Os mais acanhados escondiam nas bolsas, em maletas, pastas de couro. Espanta capeta! Certo que viviam camuflados… De repente, dispara o  mercado da #músicagospel. A coisa muda de figura. De crentes à cristãos evangélicos. A igreja renovando seu público, jovens levitas em grupos de evangelização, sonhando com o sucesso  de tocar nas  rádios, cantar na TV. Passam a exibir, a bíblia como troféu. Para os mais fervorosos, calhou que junto da emancipação das igrejas evangélicas em seus desdobramentos e denominações.  E a força da igreja católica, um diferencial: se na igreja católica não temos padres mulheres celebrando misso, nas igrejas evangélicas há pastoras celebrando cultos. Sobre as cruzadas, vieram de Roma. Eram cruzadas militares. No Brasil, a transição foi na política.  Saímos da ditadura, do regime militarista para o regime democrático. 1983: era das #DiretasJá. Olha só. que benção!? O povo brasileiro pôde ir às urnas, escolher o seu Presidente da República. Ah, mas aí é que tá.   Os missionários.   Reverendos. Aqueles pastores que tinham a fama de  ministros de grandes curas e milagres vão despertando em si próprio, em  suas ovelhas, interesses pela política, a pregação do evangelho da salvação. Vão mudando  para  prosperidade.  As cruzadas, o movimento de  avivamento na busca  por nomes para compor as bancadas estadual federal. Principalmente o cargo maior, o de  chefe da nação. E, sob o lema: o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Oram por um ungido, um homem, uma mulher de Deus. Em 1985 elegeu-se, por voto indireto, Tancredo Neves. Nem chegou a tomar posse. Faleceu antes. Assumiu o seu vice, José Sarney. Entre 1990 e 2016  foram  cinco  presidentes da República, eleitos pelo voto direto, sendo 4 homens: Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva.  Finalmente, uma mulher: Dilma Rousseff. Renúncias. Impeachment. Prisões. No caso da presidenta,  foi golpe ou não foi golpe? Na expressão popular, a definição da política brasileira, incluindo parlamentares: é o cão chupando manga. Mas, só em 2018 que os sonhos  dos pentecostais desabrocham, depois que o deputado Jair Messias Bolsonaro se declara terrivelmente evangélico e se lança candidato à presidência. Um capitão do exército, de nome Messias,  ser o sétimo eleito. O número da perfeição e a confusão está armada. O momento era mais do que propício. Perfeito para lideranças das mais  influentes denominações, que se unem em torno e se fortalecem indiscriminadamente. Reza a lenda que fé, política e religião não se misturam. Tragédias à parte, caiu como um feitiço. Aos dos anos de governo,  em 2020, a chegada de um  inimigo mortal. Dos piores que o mundo já enfrentou, lançando sobre planeta a # pandemia da #Covid-19. Semelhante à praga do Egito, dos tempos de Moisés e do faraó. O #coronavírus dizimando a humanidade. Como o rei Davi tinha um conselheiro, Aitofel, amigo urso por sinal, o presidente Bolsonaro tem o seu conselheiro em tempos de crise: o pastor Silas  Malafaia. Com o perdão da comparação, deu no que deu.  Estamos em 2021, em meio a uma CPI, em plena pandemia. Terrível. E, pasmem, a corrida presidencial já começou a fervilhar. Esqueceram até do vírus, objetivo  principal que deveria  ser, o  fim da #pandemia. A vacinação em massa foi  trocada por vacilação em massa! Eleitores estão morrendo aos milhares e, se tudo der muito errado ou não, muito certo.? Ah, se nenhum dos políticos favoritos ao cargo vier a  morrer de #Covid-19 daqui pra  2022? Algum vidente arrisca a dizer que fim vai ter essa  parte da história do Brasil? Alguém com dons de revelação? Cabe  a mim e a você, que está lendo, pedir misericórdia, Senhor. Sara a nossa terra. Nota do Autor: Para mim, Davi e Aitofel são como os partidos e políticos mandatários. Amizade, lealdade e traição. Disputas de poder. Por parte do filho de Davi e a corrupção por trás de toda a trama. E aborda depressão (em seus dois sentidos). Charge: helodangeloarte

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Generais da Banda

Por Sonia Castro Lopes Uma das melhores recordações de minha infância – uma infância muito sonora, por sinal – era ouvir minha mãe cantando marchinhas de antigos carnavais. Ao assistir o depoimento do general Pazuello na CPI da pandemia, não pude deixar de me lembrar da canção interpretada por Blecaute que foi um tremendo sucesso no carnaval de 1950. A letra é curta, mas carregada de sentido: Chegou general da banda he he/Chegou general da banda he ha /Mourão, mourão, vara madura que não cai/Mourão, mourão, oi catuca por baixo que ele vai… (Raimundo Satyro de Mello, Tancredo Silva e José Alcides) Só isso. Mas foi o suficiente para ser uma das marchinhas campeãs do carnaval. Lembro que para minha mãe, a expressão ‘general da banda’ tinha uma conotação depreciativa, a de alguém que não cumpria sua função com eficiência, não honrava as forças armadas. Em geral, a patente de general nos remete à idéia de indivíduos que concebem estratégias militares, sabem planejar os procedimentos táticos com aptidão e perícia, dominam a arte e técnica de coordenar a ação das forças militares para conduzir conflitos ou defender a nação. Mas o ‘general da banda’ é a antítese de tudo isso. Tínhamos um vizinho que se autoproclamava ‘general’ pois fora à guerra e por esse motivo alcançara promoção ao mais alto posto do Exército. Toda a vizinhança o reverenciava. Era general prá lá, general pra cá, nunca lhe soubemos o nome. Ungido pelo poder que lhe conferiam, começou a se intrometer na vida dos outros, dar opiniões, agindo de forma muitas vezes arbitrária. Não deu outra. Em pouco tempo ficou conhecido na rua como ‘general da banda’ em alusão à marchinha carnavalesca. Em texto publicado na Revista Serrote (n. 29, jul.2018), Heloisa Starling refere-se aos generais da banda como aqueles que “saem dos limites de sua profissão e se intrometem na vida civil do país quando ocorre (…) crise política aguda; estímulo vindo de pessoas e setores sociais dispostos a ultrapassar as barreiras constitucionais para alcançar seus objetivos; fragilidade das agências de governo – executivo, legislativo, judiciário.” Ou seja, são militares que, extrapolando suas funções, estão sempre prontos a intervir na vida política para fazer valer a ‘ordem’ na condição de salvadores da pátria.  Na história de nosso país foram frequentes os episódios de quarteladas ou golpes protagonizados pelos militares, desde a proclamação da república até o golpe desferido em 1964 que conduziu o generalato ao poder por 21 anos. Composta num período em que o general Eurico  Gaspar Dutra deixava a presidência com a popularidade em baixa, a interpretação mais provável é que fosse ele o inspirador daquela marchinha que o povo cantava em tom debochado, verdadeiro desacato à figura da mais alta patente do Exército.  Curiosamente, o nome do general da música – Mourão – é o mesmo do atual vice-presidente. Mera coincidência, pois em 1950 o general vice talvez nem tivesse nascido. Tampouco é provável que se referisse ao general Olympio Mourão Filho, que  marchou com sua tropa de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro na tentativa de protagonizar o golpe de 64  e, ao perceber que fora excluído da liderança do movimento, concluiu que em política ele não passava de uma ‘vaca fardada’. Portanto,  o mais plausível é que a marchinha composta em 1949 referia-se ao presidente Dutra ou  a algum dos  generais  que garantiram a ordem durante o Estado Novo de Vargas, como observa Starling, já que os dois mourões aqui citados situam-se em períodos posteriores à música do nosso querido Blecaute. Nos últimos dias o Brasil conheceu um personagem à altura do ‘general da banda’. Um general a quem falta arte e técnica para planejar estratégias e que, embora tenha a fama de ser um especialista em logística, aceitou uma missão para a qual não tinha o menor preparo. Peça-chave da CPI da pandemia, tenta agora blindar seu chefe a todo custo, ainda que em prejuízo da própria carreira. Mas os atos cometidos por esse ‘mourão’ não suscitam apenas atitudes debochadas. Provocam indignação e revolta porque foram atos criminosos. Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o atual governo não tivesse apostado na necropolítica, na qual Pazuello desempenhou papel proeminente. Para proteger seu chefe, nosso patético general mentiu de forma vergonhosa. E por mais que tivesse sido bem preparado para declamar um discurso ensaiado, seu depoimento não convenceu. Apesar de todas as mentiras compiladas pelo relator da comissão,  apesar da descompostura que foi obrigado a ouvir dos senadores oposicionistas e independentes, o prejuízo ainda foi pequeno. E se os arguidores tivessem se preparado melhor – se o tivessem cutucado por baixo – como diz a música, ele teria saído dali muito mais desmoralizado do que entrou. Nunca se mentiu tão descaradamente numa CPI, apesar das provas inequívocas que se contrapõem às narrativas forjadas. A atuação dos senadores governistas foi, no mínimo, constrangedora, defendendo o indefensável ou agindo como verdadeiros ‘cães de guarda’ para proteger o responsável pelo agravamento da maior crise sanitária que já se abateu sobre o país. Uma vergonha assistir o exército brasileiro compactuando com tamanha farsa. São milhares deles ocupando postos no governo, acumulando soldos com gratificações, legitimando  as ações de um presidente que prometia acabar com a ‘mamata’ e a corrupção. O Brasil de hoje abriga inúmeros ‘generais da banda’ dos quais Pazuello talvez seja o exemplo mais contundente.   Ilustração: Charge de JotaCamelo   Abaixo, gravação original de General da Banda por Blecaute. 1949      

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Carta aberta a Rita Lee

Carta aberta para #RitaLee

Por Adriana do Amaral Nota oficial de uma admiradora Tudo que li me irrita quando eu ouço Rita Lee Carlos Leminski Desde quinta-feira (20), quando eu li que você tinha câncer, Rita, me revoltei. Como assim? Chorei até secar a alma, mentalizei melhoras. (In)conformei-me. Pensei em escrever uma crônica a respeito, mas voltei atrás. Seria oportuno? Tal o personagem da #EscolinhadoProfessorRaimundo, refleti: Por que sim?  Por que não? Escrevi. Não uma crônica, mas uma carta. Talvez eu faça uma petição pública. Boralá assinar um abaixo assinado a Deus para revogar esse diagnóstico? Pedir a Virgem Maria que interceda pela saúde da nossa Rita, que não é santa. TksGod! Ainda menina, copiei aquele coração pintado na face e cantei a canção do Festival de 1967, Domingo no Parque. Eu tinha cinco anos e só mais tarde fui capaz de entender a letra. No primeiro show, adolescente, vi aquela mulher magérrima cantando Saúde, sem parar um segundo. Quanta energia! Mais tarde, tantas coisas bacanas de se viver… E quem era aquele gato ao lado dela? Rita também me ensinou que tutti-frutti era muito mais do que sabor de chiclete, mas de banda; com ela descobri o que era um lança-perfume. sem ao mesmo sentir o cheiro -do barato proibido. Aprendi que ser mutante é o melhor caminho, que o sexo frágil é mesmo o forte, que toda mulher quer ser amada, mas também pode ser chata. Principalmente, que legal, mesmo, era ser #ovelhanegra, e fui ser gauche nessa vida. Em São Paulo, inspirada na melhor tradução da cidade, me perco e me encontro nas esquinas das ruas além da Ipiranga e São João. Confesso que circulei pela Praça Vilaboim, em São Paulo pensando em, talvez, quem sabe, cruzar com você, quando em quando… Não consegui. Mas você está sempre aqui, perto, prá mim. Na #pandemia da #Covid-19 cantei e cantei, emocionada: a gente não consegue ficar indiferente debaixo desse céu. Versos tão atuais de “Lá vou eu” nesse #isolamentosocial. Aquela moça rebelde foi amadurecendo, inclusive declarando que os pesos a mais a tornaram mais gostosa. Os cabelos vermelhos se embranqueceram, Rita foi avançando na idade e se transformando numa Rita ainda mais intrigante. Nem sempre concordamos, mas a vida é uma eterna dialética, não é mesmo? Rita refugiou-se. Hoje fala apenas quando quer e para quem quer. Justíssimo. Que bom, Rita, que você redescobriu outros modos de vida e jeitos de viver -bem- a vida… Com os bichos, a natureza, seus livros, seus filmes, suas canções, seu amigos! E o Roberto sempre ao seu lado. Ah, Roberto (de Carvalho), o “moço da bonito”, que  divide a banheira de espuma, as vida, as canções, que bom que você continua juntinho, ajudando Rita a cuidar mais de si. O casal 20 menos improvável que se mostrou eterno. Câncer no Pulmão, Rita? Não! Sabemos da letalidade dessa doença, perdi uma grande amiga assim. Felizmente, o diagnóstico é precoce e a medicina avança na terapêutica. Nem se atreva a nos deixar, Rita. Você é daquela que vai morrer igual passarinho: de velhice, dormindo, quietinha, discretamente, cantando suavemente. Enquanto isso, vamos todos cuidar de você. Ainda que à distância, nesse mundo virtual, pois energia é vital! Enquanto você, você continua viva e cheia de graça. Continua fazendo a gente feliz, Rita! #saúdeRitaLee     Crédito da foto: Reprodução/Instagram  

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