Construir Resistência

19 de abril de 2021

Filhas da Terra: o retrato da luta da mulher indígena brasileira

Por Maria Cecília Reina   Documentário mostra, entre cantos, cores e discursos fortes, a defesa das mulheres indígenas por suas vidas e cultura   “Somos a resistência. Nós somos os filhos da terra, nós somos a mãe terra. Vamos à luta!”. Foi esse o grito de guerra que deu início ao documentário Filhas da Terra, obra que retrata o protagonismo da mulher indígena no Brasil atual. Produzido por quatro jornalistas de São Paulo, o curta tem como maior foco a Primeira Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, ocorrida em agosto de 2019, em Brasília, que conta com a luta deste povo por políticas públicas e respeito aos seus territórios, corpos e espíritos. A manifestação reuniu 2.500 representantes de 130 povos indígenas de todo o país nas ruas brasilienses, destacando como porta-vozes nomes femininos importantes na política, como Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Associação Brasileira dos Povos Indígenas (APIB), Joênia Wapichana (Rede Sustentabilidade), primeira deputada federal indígena, e Chirley Pankará, co-deputada estadual pelo mandato coletivo da Bancada Ativista (PSOL), mas também deu voz a lideranças indígenas de todo o território brasileiro. Uma das principais ações das integrantes do movimento foi a ocupação da sede da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), em protesto pelo fim do desmonte da saúde e o afastamento de Silvia Nobre Waiãpi, ex-Secretária Nacional de Saúde Indígena. Após caminharem até o edifício, as manifestantes cobraram um posicionamento da antiga coordenadora e reforçaram o tema da marcha: “Território, nosso corpo, nosso espírito”. Em uma abordagem participativa, o documentário transita entre a vida da mulher indígena dentro das aldeias e em ambientes públicos – por exemplo, na política e universidades brasileiras. Ambas as realidades, apesar de distintas, se envolvem por um único ideal: a luta pelos direitos dos povos indígenas e a preservação de sua cultura e ancestralidade. Como protagonistas, destacam-se Simone Takuá, fitoterapeuta indígena da aldeia Piaçaguera, no litoral de São Paulo, e Chirley Pankará, co-deputada estadual do PSOL.   Nota da autora: Filhas da Terra foi apresentado como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo no final de 2019. Com nota máxima atribuída pela banca avaliadora, composta por profissionais renomados da área, a obra possuiu orientação do professor e jornalista Valdir Boffetti e foi dirigida por Bruna Dorazzo, Letícia Sousa, Maira Escardovelli e Maria Cecília Reina.   Assista o documentário na íntegra: YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=qvUZ8xEEVsU _    

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“Descomemorar”a extinção dos Conselhos é Defender a Democracia

Eduardo R. Gomes   Passou despercebida a “descomemoração” da extinção dos conselhos com participação da sociedade civil na administração pública,que teve lugar na semana que terminou neste último sábado dia 17 de abril.O objetivo da “descomemoração” foi refletir sobre a importância dos conselhos de defesa de direitos e de políticas públicas negociadas, para mostrar a importância dos diversos fóruns participativos, buscando a restauração dos mesmos.   Esta “descomemoração” deriva da revogação destes conselhos feita há dois anos pelo atual Presidente, através de um decreto extinguindo tais instâncias participativas, apesar de já terem sido amplamente reconhecidos como espaços de participação da maior importância,na democracia eleitoral.   Paradoxalmente, conselhos representativos e decisórios deste tipo derivaram do pensamento autoritário corporativista do entre guerras, baseados na identidade econômica das pessoas e dos grupos sociais, sob o guarda-chuva do Estado. Posteriormente, conselhos com esta inspiração foram incorporados com sucesso nas democracias europeias no pós-guerra propiciando crescimento econômico, baixa inflação e reduzido desemprego, sob um formato tripartite de representantes do capital e trabalho dentro da esfera pública.   Esta iniciativa acabou se desdobrando em uma associação internacional com todos os conselhos existentes no mundo: trata-se da Associação Internacional dos Conselhos Econômicos e Sociais e Instituições Similares (AICESIS), criada em 1999, com membros oriundos da África, Ásia, Europa e América Latina, abarcando diferentes territórios – de um país a uma cidade, passando por entidades regionais.   Exemplo mais próximo de nós foi o chamado ‘Conselhão’, criado por Lula. O então Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social nomeado pelo Presidente era chamado por ele a decidir por unanimidade sobre grandes temas nacionais por ele mesmo proposto. Tinha uma diversidade maior da representação, incorporando grupos não tradicionais como representantes dos artistas, das várias religiões, entre vários estados – e até municípios – seguiram o exemplo do governo federal.   Na verdade, no caso brasileiro, estávamos indo além do Conselhão, tomando outros temas de interesse público, como objeto de conselhos. Assim foram instituídos conselhos para a garantia de direitos e na luta contra o racismo, contra as várias desigualdades que tão perversamente nos marcam. Por estas e outras razões, conselhos devem ser, sim, celebrados para um Brasil menos iníquo e mais democrático.   Eduardo Gomes é cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense.

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Deus te ama, mas não muito

 Luis Otavio Barreto   O pastor José Olímpio, da Assembleia de Deus em Alagoas, disse que ia orar para que o senhor de Paulo Gustavo, Satanás, o levasse para junto de si, no inferno; não surpreende, em nada. Esses pastores pentecostais e neopentecostais, em geral, possuem essa personalidade bélica, combativa e excludente, ah, mas não são os únicos! A despeito do conceito de Deus e do que representa, a igreja evangélica, com raras exceções, épródiga em condutas supressivas. A católica também, mas com mais leveza e sutileza calculada.   Na igreja evangélica há um diferencial que possibilita o exercício daquele tipo de conduta: o acompanhamento de perto. Pastores, líderes, ministros e diáconos formam uma rede cuja capilaridade atinge a todos os setores da igreja, sem a menor exceção e, em muitos casos, limites. O argumento para isto se baseia na autoridade investida pelo ‘Espírito Santo’, a saber, eles defendem.  Há que se levar em consideração, também, o “serviço informal”; ‘conselhos’, conversas e o disse-me-disse que se estabelece entre um membro e outro, até que o assunto seja tema de reuniões entre as partes: membro e liderança.   Com os católicos, o expediente costuma ser diferente: os líderes não participam tão incisivamente na vida de seus liderados, até porque as mecânicas litúrgicas dos ofícios são bem diferentes, as rotinas eclesiásticas também. Não vou me ater aqui, esse assunto dá um livro! Voltemos, portanto, a belicosidade do povo eleito; ora, há que se desconstruir a capa romântica que há por cima da religião. Não há pequena, média ou grande manifestação de violência, há manifestação, e isso basta. O que muda é o tipo de agressão e a configuração do expediente pelo qual ela se apresenta.   Em São Paulo, por exemplo, a Hillsong Church – que é a moda da vez – procura um teatro para seus cultos. Modernex, ‘pero no mucho’, a igreja segue a linha neopentecostal. Mantém o clichê ‘Ama os pecadores, mas odeia o pecado’, talvez não o cartão de crédito desses pecadores, mas isso já são outros 500… Em entrevista recente, o jovem representante da igreja, na América do Sul, disse que os gays, por exemplo, são bem vindos, mas não poderão exercer nenhum cargo e nem um papel na igreja. Precisam ser ‘acolhidos’ e entender que “Deus transforma”.   Nos últimos anos, a igreja brasileira evoluiu, mas, outra vez, pero no mucho! O maior atestado de sua morosidade ‘ético-social-espiritual’ foi a significativa expressão na eleição de Jair Bolsonaro, Flordelis, Witzel e outros…Por outro lado, mostrou algum avanço, no sentido de que há pastoras (o que era impossível, até os anos 80/90) e outros papéis que, até então, só homens desempenhavam, mas ainda continua sendo uma instituição patriarcal e moldada nos arquétipos do machismo.   Que a igreja é importante, não há a menor dúvida! Que desempenha papéis fundamentais na sociedade, não se discute! Mas é preciso observar, sem o véu do romantismo, suas condutas e analisar os reflexos disso no comportamento das pessoas. Numa perspectiva mais clara, o que se tem como resultado dessa análise?! O que a fala desse pastor da Assembleia de Deus representa?! O que o silêncio das outras igrejas, em suas particularidades doutrinárias, diz a respeito das últimas impressões sobre a imagem dos evangélicos?! E os católicos, como procedem diante do crescimento desenfreado de um emaranhado de equívocos teológicos, em meio aos próprios escândalos sexuais e financeiros?!   Qualquer indivíduo com preceitos evangélicos, crescido na cultura religiosa, dirá “Devemos enxergar somente a Cristo”. Confesso: acho mesmo é que o problema está aí; não enxergam somente a Cristo. É desse romantismo que falo; da complacência com o erro, do não questionamento, do não olhar ao entorno! E por que?!   Enfim, enquanto ninguém quiser responder, enxergar, confrontar ou retirar a romântica capa da igreja, pastores e padres continuarão orando e rezando para a morte de paulos, queimando ‘bruxas’, vendendo salvação, feijões contra covid, queimando bibliotecas, negando bençãos, ‘amando o pecador, até a pág.14’ e expulsando os demônios que ela mesma criou.   Luis Otavio é músico, pianista e professor de Língua Portuguesa. 

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A endemia dos crimes sexuais no Brasil

Por Simão Zygband Sou homem e quero falar sobre um tema que deverá criar muita polêmica. Tomara. Gosto dela e acho muito produtiva. Depois que se criou o conceito de lugar de fala, supostamente não tenho autoridade para falar sobre questões que não me dizem respeito diretamente. Não posso falar, por exemplo, de negros por que não sou negro, de abuso sexual por que não sou mulher ou sobre gays e não sou gay. O psicanalista Contardo Calligaris, recentemente falecido, escreveu na Folha contra este conceito de lugar de fala. Disse que era “alérgico” ao argumento “você não pode falar dos negros porque não é negro”. Estou com ele. Todo mundo deve expressar seus sentimentos, de qualquer assuntos, sob a sua ótica. A sociedade é que deve julgar a pertinência da abordagem do tema. Bom. Mas quero falar sobre o abuso sexual que é realizado majoritariamente contra as mulheres mas, quando atinge crianças, trata-se de um abuso chamado de pedofilia. Também se comete mais contra meninas do que meninos, mas há também contra eles. Os crimes sexuais são praticamente endêmicos no Brasil. Não saberia bem os motivos, mas suspeito que seja fruto de uma nação oprimida e reprimida sexualmente onde, para piorar, as crianças são sensualizadas precocemente. Os abusos acontecem principalmente dentro da própria família, inclusive as evangélicas, mostram as pesquisas realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP). Em 2010, ocorreu a chamada CPI da Pedofilia, diante de casos grotescos de exploração sexual de crianças. Para chegar ao ponto de ser necessário realizar uma CPI, havia uma explosão de casos na mídia, o que sempre motiva os parlamentares a se movimentar. Também é comum que nunca dêem em nada. O relatório final da CPI teve quase 2 mil páginas e relacionou casos de pedofilia e ações feitas pelas polícias em nove estados – Goiás, Roraima, Pará, São Paulo, Espírito Santo, Piauí, Amazonas, Alagoas e Bahia. Nele estão apontados políticos, religiosos e até magistrados como suspeitos da prática do crime contra as crianças. Evidentemente que, depois de muito barulho, não houve nenhuma pessoa indiciada. O presidente da comissão era o então senador Magno Malta (PR/ES), um pastor evangélico que também presidiu a CPI do Narcotráfico (outra que também não deu frutos). Normal acabar em pizza. Abusada pelo tio Na semana que passou, uma amiga minha de facebook escreveu um texto que, considero, seja semelhante a milhares de crianças e jovens abusadas sexualmente dentro da própria família. Escreveu ela, cujo nome manterei no anonimato: “Hoje recebi a notícia do falecimento de um tio que abusou de mim. E então lembrei que a primeira vez que me chamaram de “louca”, foi quando contei o que acontecia comigo. Eu era tão jovem, não sabia nada de nada e passei um bom tempo carregando a culpa de a louca ser eu. Mas depois, com o passar dos anos, entendi que sempre quando colocamos pra fora o que “não se deve falar”, a louca sempre será você. E então essa culpa diminuiu. Hoje ainda tento me libertar dela por completo. É absurdo, eu sei, mas a verdade é que eu ainda a sinto como uma sombra, me perseguindo nos momentos de fragilidade. Mas é apenas uma sombra. Em breve, não restará mais nada”. Esta minha amiga de facebook é hoje uma adulta que durante toda a sua vida carregou consigo este sentimento de culpa. Não é incomum que as mulheres sejam acusadas pelo estupro (estava com roupas bem justas) ou que façam um “mimimi” de “coisa tão natural e corriqueira”. O psicanalista Joel Birman relata que em seus atendimentos é muito comum ouvir relatos deste tipo e que a mãe ou os familiares acreditam que a vítima “está lhes trazendo problemas” ao relatar que sofreu abuso sexual. Em geral, há um silêncio cúmplice e todos se calam e permitem que os fatos se sucedam. Esta omissão também faz parte de um perfil do povo brasileiro, que prefere jogar o problema para debaixo do tapete a enfrentar a realidade. Que o diga a mãe do menino Henry Borel, assassinado a pancada pelo padrasto, vereador Dr. Jairinho, um monstro do partido Podemos, o segundo mais votado pelos cariocas para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Monique Medeiros da Costa e Silva não queria melindrar seu novo marido e não deu atenção às queixas do menino. Neste caso, específico, não houve crime sexual, mas omissão por parte da mãe, muito comum quando se trata de violência, sexual ou não. Casas Bahia Ainda que tardiamente, uma vez que o acusado faleceu em 2014, estourou através de reportagem da Agência Pública, um escândalo dos crimes sexuais praticados por Samuel Klein, o fundador das Casas Bahia. Segundo a reportagem, Samuel Klein teria usado seu poder como empresário para manter durante décadas um esquema de aliciamento de menores e adolescentes para a prática de exploração sexual. A equipe da Agência Pública ouviu dezenas de depoimentos de vítimas, o que caracteriza com perfeição a prática de crimes sexuais. A pergunta que não quer calar: por que diante de vários processos na Justiça, nada houve contra o dono das Casas Bahia? Por que os que o circundavam se calaram? Acho que nem Freud explica.      

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Sua Majestade EL REY em detalhes

Por Carlos Monteiro   Há oitenta anos, aquele menino Zunga do Cachoeiro vinha ao mundo por Lady Laura, nas batidas do relógio de seu querido velho amigo Robertino. Nascia Roberto Carlos Braga, abrolhava, aos seis, a majestade nas aulas de piano e violino, inicialmente ministradas por sua mãe e completadas no Conservatório Musical de Cachoeiro do Itapemirim. Exatos nove anos depois, se apresentava na Rádio Cachoeiro; o cachê? Um punhado de balas. Fez tanto sucesso, cantando o bolerão “Amor y más amor”, que passou a ser atração permanente aos domingos. Roberto adorava imitar Bob Nelson. Um cantor brasileiro, usando um figurino de John Wayne, cantando country em ‘Flor do Lácio’. Saiu do Cachoeiro, veio para o Rio de Janeiro, era para voltar. Não voltou. Pensou que seu cachorro podia lhe sorrir latindo. O sucesso o fez ficar. De datilógrafo do Ministério da Fazenda e da Rádio MEC, decolou com Os Sputnicks, em que um dos membros era o Síndico da Turma da Matoso, Praça da Bandeira e os fins de semana com caldo de cana. No Bar Divino tudo era maravilhoso. Sebastião Maia [1942 – 1998], cuidado com o disco voador. No “Club do Rock”, na TV Tupi, conheceu Carlos Imperial [1935 – 1992], também de Cachoeiro, numa apresentação do grupo – a realeza já reinava em sua vida. Imperial o chamava de “Elvis Brasileiro”.   Pelas calçadas da Matoso conheceu seu tremendo e eterno parceiraço; outro Carlos – vamos dominar o mundo -, o Erasmo. Tudo por conta de Elvis, o que não morreu e de “Hound Dog”. O “Cão de Caça”, numa inspiração de Orfeu, uniu os dois por meio da busca da letra original. Em 1958 cantava na boate do Hotel Plaza, no bairro de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. Com influência de Dolores Duran [1930 – 1959] e Tito Madi [1929 – 2018], trazia ao palco, por meio do Neumann M 49, um pouco da voz de João Gilberto[1931 – 2019], um romântico inveterado. No abençoado ano de 1959, pelo selo Polydor, gravava um compacto simples, para quem não sabe, um disquinho de vinil um pouco maior que um CD com uma música de cada lado. Normalmente a do lado ‘A’ era a boa, a do ‘B’, se emplacasse, era lucro puro. Daí a expressão ‘Lado B’. A dupla de Carlos reais emplacou “João e Maria”. Nada “Fora do Tom” como estava no lado ‘B’. Dois sambas. Em 1960 vem, ainda com Imperial, outro compacto simples e mais dois sambas: “Canção de amor nenhum” e Brotinho sem Juízo. Chega 1961, o Rio não era mais Capital Federal, mas as grandes gravadoras estavam por cá. A Columbia lança o Rei no Long Play “Louco por você” que apesar de faixa título – estava na sétima posição -, não era a que encabeçava o disco. Em tom profético, assim como o dístico, a última música será “Eternamente” a primeira em sua vida. Pulou um ano e não parou mais até 2011. Ano a ano um novo disco, em 1965 foram três. “Roberto Carlos canta para a juventude”, “Jovem Guarda” e sua primeira incursão em espanhol: “Roberto Carlos canta a la juventud”. Nesse período “Parou na Contramão”, fez “Splish-Splash” em seus beijos que saem faíscas e todos gritam que “É proibido fumar”. Daqueles beijos que deu e jamais esqueceu. “Só por amor” quis saber “Onde anda o (meu) seu grande amor”, porque “Não quer(o) ver você tão triste”! Escreveu cartas de amor, reclamou dos ”Mexericos da Candinha”, encantou a colônia portuguesa com “Coimbra” e, em 1979, com “Nem às paredes confesso”. “…Primeiro foi Suzy, quando eu tinha lambreta/Depois comprei um carro, parei na contramão/Tudo isso sem contar o tremendo tapa que eu levei/Com a história do Splish Splash…”. Se tornou Rei, coroado pelo Velho Guerreiro em 1966. Como castelo o Teatro Astória, na monarquia do Leblon, reino da TV Excelsior. Encontrei Roberto, aos cinco anos, no rádio Philips valvulado, em baquelite, tonitruante, da minha querida avó: “…O Calhambeque, bi-bi/Meu coração ficou com o Calhambeque…” e como ficou. Eu imitava o Rei, vestia roupa “Calhambeque” do Rei comprada no Príncipe da rua Gonçalves Dias e anel Carcará, feito a partir do esguichador de água para o para-brisa, do Fusca. Passava os dias cantando “É proibido fumar”, “Amapola” e “Broto do Jacaré”. Fiquei fã do monoquíni, vivia uma vida de playboy e mandava tudo pro inferno para ser aquecido, no inverno, pelas Casas Pernambucanas e suas lãs, flanelas e cobertores. Aos sete anos a vizinhança já não aguentava mais saber que eu amava a namoradinha de um amigo meu. “É Papo firme”? Eu com meu “Ar de bom moço” “Te darei o céu” para em “Nossa canção” te dizer que não “Esqueça”: “Eu estou apaixonado por você”. “Não precisas chorar”, estou “Esperando você”. Roberto Carlos de 1966, no meu ponto de vista, o melhor de sua primeira fase. “Roberto Carlos em ritmo de aventura” selou 12 músicas tocadas. Nenhuma ficou de fora do ‘set list’ da programação das rádios. Quase a trilha sonora do filme homônimo, dirigido por Roberto Farias [1932 – 2018], com a antológica cena do helicóptero atravessando o túnel do Pasmado e depois sobrevoando a Cidade Maravilhosa. Anos vibrantes até 1970 com “As flores do jardim da nossa casa”, “Eu não vou deixar você tão só” e “Jesus Cristo”. A vida seguiu, crescemos todos, chegou a fase romântica. Em 1971 vieram “Detalhes”, com “Te amo, te amo, te amo”, confessado pelo Rei, as músicas que ele mais gosta. “…Detalhes pequenos de nós dois/São coisas muito grandes para esquecer/E a toda hora vão estar presentes/Você vai ver…”. Quem nunca? “De tanto amor” minha “Amada, amante” e o grande carinho a Caetano no exílio: “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” fazem parte do álbum.   A partir de 1972, com “Como vai você”, em 1973 em “Proposta”, em 1974 absolutamente fotográfico, talvez uma herança subliminar de João Gilberto em “Quero ver você de perto”: ”… Vou fotografar sua mente/Quero ver seu corpo presente/Quero ver de perto seu

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