Construir Resistência

14 de abril de 2021

As vítimas nada anônimas do Covid-19

Por Simão Zygband Ontem se foi o Vilson Oliveira, militante histórico do Partido dos Trabalhadores (PT) na Zona Leste de São Paulo, filho da Dona Alzira, que também se foi vítima da mesma doença há menos de um mês. Ele era irmão da Vivi e da Vera, tios e mãe da minha amiga Bárbara Barbosa, que no início do ano retornou dos EUA para presenciar esta tragédia familiar, de enterrar a sua vó Alzira e o seu tio Vilson em pouco mais de um mês. Hoje foi a Alice, do restaurante Sol Nascente, ponto de encontro dos intelectuais da São Luiz do Paraitinga, um dos melhores da cidade situada no Vale do Paraíba. E há um ano já se foram milhares de Joãos, Marias, Pedros, Sandras, Ricardos, Helenas, e tantos outros brasileiros que ficaram à mercê do coronavírus, fruto da irresponsabilidade do governo genocida de Jair Bolsonaro e seus boçais seguidores. Estamos na casa dos 360 mil mortos, uma média de quase 4 mil óbitos diários. O Brasil tornou-se um pária internacional. No início do ano, na passagem do réveillon, estive em Paraitinga, terra de Osvaldo Cruz, o pai da vacina brasileira, e lá me surgiu uma ideia: por que os moradores da cidade não organizavam uma manifestação em frente à casa de Osvaldo Cruz exigindo que Bolsonaro comprasse as vacinas redentoras e as distribuísse para todo o pais? Procurei a Alice no restaurante, por sugestão do meu amigo Mouzar Benedito, frequentador de Paraitinga e um dos líderes do movimento do Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci), cuja sede é exatamente no Sol Nascente. Ela estava absolutamente tomada pelos afazeres do atendimento delivery para as festas de réveillon. Sabia que o apoio dela seria fundamental para o sucesso do ato. Alice quase não teve tempo de me ouvir. Falei a ela, rapidamente, da intenção de fazer o ato em Paraitinga pelas vacinas, que seria muito simbólico, com um abraço à casa de Osvaldo Cruz. Ela, sem muito tempo para refletir, cansada que aparentava estar, me perguntou: “mas você quer fazer um ato presencial em plena pandemia?”. Preferi não insistir, pois vi que ela não teria tempo sequer para me dar atenção. E de fato, outros luizenses encamparam a ideia e realizaram uma linda atividade exigindo a vacina, declamando, cantando e lendo um manifesto na frente da casa do Osvaldo Cruz, hoje transformada em museu. Destaco o empenho do produtor Alexandre Genari, que acabou organizando o evento,  que ganhou inclusive a cobertura de mídia do portal G1 e da Band Vale, bastante importantes para a região. A Alice não topou participar desta atividade, mas era personalidade fundamental na vida de São Luiz do Paraitinga e não era de fugir da raia. Simplesmente se sentiu insegura de fazer uma atividade pública, tinha respeito pelo vírus, mas como se pode perceber, o contraiu de outra maneira, justamente ela extremamente disciplinada contra ele. Assim, presto aqui minhas homenagens a pessoa tão importante e querida em Paraitinga. Alice é símbolo de como o vírus não escolhe sexo, idade, raça, gênero ou classe social. É bem verdade que tem dizimado, sobretudo, os mais velhos, mas agora começa atingir com fúria a juventude. Desnecessário dizer da responsabilidade do genocida Bolsonaro, um suposto presidente da República que nada fez para conter a voracidade da pandemia. Um ser desprovido de sentimentos humanos, que sorri da desgraça alheia. Mas o povo brasileiro saberá se livrar do seu algoz. Isso será feito em memória de Vilson, Alice, dona Alzira e tantos que tiveram suas vidas interrompidas pelo coronavírus. #forabolsonaro. Foto: Alice do Sol Nascente-acervo pessoal    

As vítimas nada anônimas do Covid-19 Read More »

10 filmes que mostram a importância do Jornalismo

O jornalista Eduardo Micheletto lista 10 películas que mostram parte do universo que envolve o profissional da imprensa, os personagens retratados, a mídia e o leitor.  Segundo ele,  “o  jornalismo passa por um momento delicado. Veículos de imprensa tradicionais enfrentam uma crise de credibilidade e profissionais da área sofrem uma campanha de perseguição e difamação nas redes sociais. Em momentos como esse é fundamental mostrar a importância da profissão.”   Construir Resistência indica não apenas a leitura do artigo, mas convida o leitor para rever alguns clássicos do cinema.   Divertimento seguro em tempos de #pandemia   Acesse a matéria na íntegra a partir do link: https://eduardomicheletto.wordpress.com/2021/04/13/10-filmes-que-mostram-a-importancia-do-jornalismo/  

10 filmes que mostram a importância do Jornalismo Read More »

Codinome Ana

Miriam Waidenfeld Chaves   Num domingo, Flávia, ao voltar de sua primeira reunião clandestina, enxergou a cidade  onde morava como se fosse a primeira vez. Desceu do ônibus e olhou para trás, procurando se certificar de que não estava sendo seguida. Esse comportamento tornou-se corriqueiro em sua vida. E daí em diante, nunca mais desceu de um ônibus como outrora. Seu olhar deslocou-se do sol, do mar e das montanhas para as pessoas que  passou sorrateiramente a observar. Ana passou a habitar em Flávia. Sem perceber desenvolveu um faro que lhe preveniu de alguns perigos. Teve aquele nas cercanias da universidade, perto do bar do Nelson, quando de longe avistou dois caras estranhos conversando com um amigo seu. Passou reto e não parou para o cafezinho. Depois soube, perguntavam por ela. Num outro ocorrido, Josias, novo colega de faculdade, várias vezes a abordou dando uma de conquistador. Farejando encrenca, não deu pelota. Soube, mais tarde, que era um policial infiltrado. No final dos anos 1970, tentou por duas vezes ir ao Encontro Nacional dos Estudantes. Em Minas, correu tanto da polícia que terminou invadindo uma Igreja, onde se refugiou junto com outras 50 pessoas. Lá ficou  aguardando  as negociações entre a polícia e o pároco, e apenas à noite foi liberada. No ano seguinte, em São Paulo, teve menos sorte e,  sitiada no diretório acadêmico, saiu de lá direto para o DOPS, onde foi fichada. Sei que  viveu outras  histórias rocambolescas nesse período tão sombrio de sua vida. De tão esdrúxulas, guardou só para si. Nunca insisti para contá-las, apesar de minha curiosidade. Só sei que me fala daqueles tempos com certa nostalgia. Diz-me que, apesar da repressão, acreditava poder mudar o mundo. E nos seus vinte e poucos anos tudo valia a pena! Ah, os anos 1980! Quanta saudade! Conta-me que o Palácio Guanabara fora invadido por uma multidão, após a vitória de Leonel Brizola para governador. Os jardins daquela mansão  fantasmagórica naquela noite coalharam-se de bandeiras vermelhas, faixas e jovens alegres se confraternizando, enquanto aguardavam pelo discurso de Briza. Também me confessou que dois anos depois se encontrava junto com um milhão de pessoas na Candelária. Sentada no asfalto da Presidente Vargas com seus companheiros, olhava embevecida para o palanque, na espera de seus ídolos falarem à nação. Nesse momento, abre a caixa com seus guardados e me mostra um recorte de jornal, cuja manchete diz Cidade faz por diretas seu maior comício. De repente, começa a ler em voz alta: Quero falar à nação brasileira, através desta multidão de um milhão de conterrâneos meus. Nós queremos que se restaure no Brasil o preceito do artigo primeiro, parágrafo primeiro da Constituição Federal. Com a voz embargada continua: ‘Todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido’. Esta é a minha mensagem. Este é meu desejo. Este é meu propósito. Confidencia-me que a multidão naquele momento, ao ouvir a voz frágil de Sobral Pinto, já com  90 anos, foi dormir em festa. Com a certeza de que os novos tempos estavam chegando. E assim a pele de Ana finalmente esmoreceu-se em Flávia, que aos poucos passou a olhar para as pessoas sem desconfiança e medo. Voltou a contemplar a montanha, o mar e o sol. Inclusive, nem olhava mais para trás quando descia de algum ônibus. Desde essa época sou testemunha de que Flávia não tem saído das ruas. Foi assim em 1992 e 2016. E, ao finalizar esta conversa franca encerra me dizendo: – Estou apenas aguardando a convocação para que a geração de 1968 vá para as ruas em 28 de junho para comemorar os 53 anos da passeata dos 100 mil e poder gritar: FORA GENOCIDA!     Miriam Chaves é contista e professora da UFRJ.

Codinome Ana Read More »

Rolar para cima