Construir Resistência

7 de abril de 2021

#paratodosverem: simulando a bandeira do Brasil, no lugar do círculo azul um prato de comida e ao invés da frase ordem e progresso lê-se Tem Gente Fome. Dois braços e mãos agarram o prato

Barriga de fome

Por Adriana do Amaral   Nas histórias do #SítiodoPicapauAmarelo, a boneca de pano, Emília, era conhecida como uma “torneirinha de asneiras” pelas “bobagens” que dizia. Mas Emília provocava à reflexão, com as suas verdades mal compreendidas. A verdadeira “boca de gamela” tem o Presidente da República, que nos remete a outro personagem do programa humorístico, aquela que quando abria a boca só falava besteiras e ouvia do marido: Cala a Boca, Ofélia!, ops Jair.   O presidente não perde uma oportunidade para ficar calado. Pelo contrário, provoca, instiga, indigna os desafetos e é aplaudido pelos afetos. Ele sabe que quando abre a boca para vomitar suas frases malditas, ele ganha a mídia e polemiza.   Na noite de terça-feira (6) ele criticou o #isolamentosocial, uma das poucas medidas que diminuem a possibilidade de contaminação pelo #coronavírus, rebatendo que o sedentarismo engorda. Desprezou as pesquisas que indicam que o povo brasileiro está morrendo não apenas em consequência da #Covid-19 como de fome.   “Tem uma pesquisa aí que diz que quem tem uma vida saudável é oito vezes menos propenso a ter problema com a Covid”, justificou o capitão. Citando a própria barriga, sinalizou que as pessoas estão engordando na #pandemia.   Enquanto isso, a barriga do povo chora. De fome. O povo vai dormir em jejum e a barriga ronca. De fome.   O presidente, que saiu ileso cerca de 70 pedidos de impeachment, até agora, segue com a mesma retórica desde que foi empossado, em janeiro de 2019. Irônico, ele perguntou à audiência com quem conversou na noite de terça-feira:  do que eu não sou culpado aqui no Brasil?   Não podemos culpar o clima e a seca, que gerou verdadeiras crises internas com os processos migratórios, como a seca de 1915, eternizada na obra O Quinze, de Raquel de Queiroz.  Podemos culpar a gestão federal e o seu descaso social.   Mas não é só ele, não é mesmo? Junte-se a ele parte dos políticos, empresariado e elite. “Sigam-me os bons”, diria o anti-herói.   O que o presidente do Brasil parece ignorar é que a postura e irresponsabilidade dele têm sido questionada no mundo. Jair Bolsonaro foi denunciado por “crime contra a humanidade” e o Tribunal Penal Internacional de Haia analisa se seguirá ou não os processos por genocídio e ataques contra os povos indígenas.  As denúncias partiram da Comissão Arns e o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos, do Cacique Raoni e de entidades sindicais. Os jornais internacionais também têm denunciado suas práticas.   O comandante em chefe diz o que quer, e todos somos obrigados a ouvir as asneiras ditas por ele. Um representante, eleito democraticamente é verdade, mas pela minoria da população. Alguém que mais de uma vez provou que não se importa com a vida humana (dos outros), com os direitos humanos (do povo brasileiro), e com o meio-ambiente (do Brasil).   Pelo andar da carruagem continuaremos sendo atropelados pelo bonde de uma história que mescla horror e dor. Quatro anos de poder, décadas de retrocesso para a humanidade brasileira.

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Cuspe na cara

  A cusparada do filho na cara da mãe e a #Covid-19 na cara do povo do Brasil:   Por Ivan Cosenza (reprodução Instituto Henfil): Rio de Janeiro 06 de Abril de 2021. Pai, o filho caçula do presidente, publicou um vídeo dele cuspindo água na cara da mãe esta semana. Sinceramente, pai. Isso pouco me importa! Tem coisas mais graves do que isso. Quando o presidente (ainda deputado), cuspiu na nossa cara dizendo que era a favor da tortura e, no plenário da câmara, homenageou um torturador e estuprador, o Ustra! O filho do presidente cuspiu na nossa cara indo à câmara dos deputados com a camisa do Ustra. Cuspiram na nossa cara, quando o presidente incentivou a queimada das nossas florestas. O presidente cuspiu na nossa cara quando fez de tudo pra trocar o comando da Polícia Federal para tentar encobrir os crimes de seu filho. Cuspiram na nossa cara quando deram 1,2 trilhões aos banqueiros e agora dão R$ 150,00 para o povo que está passando fome. O presidente cuspiu na nossa cara quando cancelou a encomenda das vacinas que poderiam estar salvando milhares de vida! Cospem na nossa cara quando tentam vender uma refinaria de Landulpho Alves, da Petrobras por menos da metade do preço. Cuspiram na nossa cara quando empurraram um Kit Covid que sabiam que não tinha eficácia e que agora está matando muitas pessoas por causa de seus efeitos colaterais. A família do presidente (incluindo o próprio) cuspiu na nossa cara quando fez esquemas de rachadinhas em seus gabinetes, tendo todos eles patrimônio acima de sua renda. Eles estão cuspindo na nossa cara tem muito tempo! Cuspindo corrupção, preconceito, violência! Essa turma está entalada na garganta de todo brasileiro honesto. Mas em breve vamos cuspir todos de volta pro esgoto de onde eles nunca deveriam ter saído! Falta pouco, pai! Um beijo do seu filho, Ivan     Cuspe Na Cara  

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Os jornalistas e o Partido da Imprensa Golpista (PIG)

Por Simão Zygband           Ilustração: Carlos Latuff Quando editei o jornal Unidade do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, tive a rara oportunidade de entrevistar Paulo Henrique Amorim um ano antes de sua morte. A entrevista, realizada na casa dele, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, tinha a seguinte pauta: a Justiça é instrumento de cerceamento da imprensa? Paulo Henrique Amorim morreu angustiado pelas dezenas de processos que recebeu, inclusive de Ali Kamel, diretor geral de jornalismo da Rede Globo de Televisão (a quem teve que indenizar), por chamá-lo de racista. Na indenização, PHA foi obrigado a pagar R$ 50 mil a título de indenização por danos morais, pelos crimes de injúria e difamação, além de receber uma pena de cinco meses e dez dias de prisão, que possivelmente não foi cumprida. Paulo Henrique Amorim foi criador de uma expressão que revelava a imparcialidade da mídia, principalmente por ocasião do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e dos constantes ataques ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. PHA considerava a mídia como o “Partido da Imprensa Golpista – PIG”. Significava que a imprensa orientava, com matérias parciais e com absoluta falta de isenção, os partidos de direita que se opunham aos governos do PT. O golpe contra a ex-presidenta Dilma, a ascensão do vice-presidente, o traidor Michel Temer e a eleição (com requintes de fraude) do atual ocupante da cadeira da presidência, Jair Bolsonaro, mostram como pode ser venal o poder da imprensa quando a serviço de interesses que em geral não beneficiam a maioria da população. Mas não foram apenas as empresas de Comunicação que sedimentaram o caminho do ódio que desembocou na eleição do governo de extrema direita de Bolsonaro, um capitão reformado do Exército, afastado por distúrbios psíquicos, com vínculos com as milícias cariocas. Bolsonaro já possuía uma ficha corrida nada salutar, fato omitido por interesses corporativos pela imprensa privada e por jornalistas de direita alinhados com os patrões, funcionando assim como verdadeiros capitães do mato. Foi exatamente este tipo de profissional patronal, subserviente, que restou nas redações dos jornais, rádios, TVs e portais. Claro que existem honradas exceções, que se mantiveram caladas e acuadas em seus ambientes de trabalho. O restante dos jornalistas foram devidamente varridos por uma espécie de” macartismo” que sempre rondou a profissão, mas que se acentuou como nunca nos últimos anos. Bastava ter alguma simpatia pelo PT, pelo Lula ou por algum partido de esquerda para ser devidamente demitido. Vladimir Herzog Não é de hoje que há jornalistas e jornalistas. Óbvio que nem todos precisam ser de esquerda para serem competentes. Mas é necessário interpretar os interesses da categoria, a quem servem e o que representam. No episódio que culminou com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, nos porões do Doi-Codi, que marcou o início do fim da ditadura militar, há de se destacar o papel nefasto dos jornalistas de direita, como Claudio Marques, um colunista que escrevia para o extinto jornal Shopping News. Ele chamava o Departamento de Jornalismo da TV Cultura, dirigido por Vlado, de “TV Vietcultura”, por passar em sua programação um noticiário sobre o Vietnã, que havia derrotado os EUA na guerra suja ocorrida naquele país, com a utilização, inclusive, de napalm contra a população indefesa. As colunas de Claudio Marques nortearam os discursos de deputados ligados à ditadura militar, como José Maria Marin e Wadih Helou, ambos da bancada malufista (ligada ao ex-governador Paulo Maluf), acusando Herzog e os jornalistas da TV Cultura de comunistas. O final da história todos sabem. A ditadura forjou o enforcamento de Herzog na cela do Doi-Codi, como se fosse um suicídio, que só acabou desmentido pela ação dos próprios jornalistas ligados ao Sindicato, inclusive a do seu presidente na época, Audálio Dantas e por lideranças religiosas como Dom Paulo Evaristo Arns, rabino Henry Sobel e o pastor Jaime Wright. A serviço do golpe Este tipo de conduta subserviente às empresas de Comunicação e aos governos de direita também norteou a ação de vários jornalistas que ajudaram a construir o golpe de estado e a levar o Brasil ao descalabro que enfrenta nas mãos do governo genocida de extrema direita. Precisam aprender que é bastante perigoso colaborar com a ruptura das vias democráticas. Muitos estão empregados ainda hoje nas empresas jornalísticas e enfrentam os dissabores de ter Bolsonaro os humilhando quase que diariamente. Fazem de conta que não foram eles mesmos que hoje sofrem os ataques do psicótico mandatário de plantão que ajudaram a eleger, apenas por não gostarem do PT, o que é absolutamente legítimo. Fingem que não é com eles e que não têm nada a ver com a história. Não foram poucos os jornalistas que estiveram a serviço do golpe e que legitimaram a ascensão de Temer ao poder e posteriormente de Bolsonaro. Muitos deles idolatravam inclusive o juiz de primeira instância, Sérgio Moro, que ilegalmente conduziu o ex-presidente Lula para detrás das grades. A manobra lhe rendeu 580 dias de prisão sem provas. Os jornalistas subservientes jamais admitiram isso é nem fizeram qualquer tipo de mea culpa. No vazamento das escutas da Lava-Jato, obtida por hackers, Moro e o promotor Deltan Dallagnol se referem aos jornalistas que cobriam o Palácio do Planalto como “abutres”. Sabiam que podiam vazar através deles informações de interesse dos golpistas, que elas estariam reproduzidas no telejornal da Rede Globo, nas revistas Veja e nos jornais O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo, entre outros. Estes grandes veículos fariam que as notícias se esparramassem para toda a mídia. Quem se notabilizou com este tipo de conduta espúria foi exatamente o filho da destacada jornalista Miriam Leitão, Vladimir Netto, repórter da TV Globo, que chegou a orientar os procuradores e Sérgio Moro de como deveriam se comportar contra Lula para dar visibilidade a uma notícia de interesse deles. Mas a lista de supostos “coleguinhas” que trabalharam pelo golpe e pela eleição de Bolsonaro é imensa e seus nomes nem merecem ser

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Jornalistas recebem o troféu Audálio Dantas em seu dia

Troféu Audálio Dantas será entregue nesta quarta, 7 de abril – Dia do Jornalista   Nesta quarta-feira (7), dia em que celebramos o Dia do Jornalista e o Dia Mundial da Saúde, três profissionais do jornalismo brasileiro receberão o ‘Troféu Audálio Dantas – Indignação, Coragem, Esperança’.  Mara Régia di Perna, Luis Nassif e Jamil Chade terão o seu trabalho reconhecido e a cerimônia, virtual, poderá ser acompanhada, a partir das 19h, pelo  canal do YouTube da OBORÉ.   Os premiados foram escolhidos através de consultas, ao longo de dois meses, com consultas a jornalistas, radialistas, artistas e estudantes apontaram para esses três nomes que devem ser referência e estímulo para as novas gerações, explica a jornalista Vanira Kunc, companheira de Audálio de toda uma vida. São pessoas que dedicaram suas vidas à defesa da Democracia, Justiça, Direito à Informação e Liberdade de Expressão.   O troféu foi concebido em julho de 2016 por iniciativa conjunta da Agência Sindical, do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé e da OBORÉ para homenagear Audálio Dantas. Com seu falecimento, em 2018, o troféu passa a receber o seu nome para servir de referência e estímulo para novas gerações de jornalistas, radialistas, de toda a gente da imprensa. Começava assim uma tradição.   Criado pelo artista plástico Roger Mátua, a partir de uma ilustração da cartunista #Laerte para a 1ª edição do Cadernos de Jornalismo do Projeto Repórter do Futuro, da OBORÉ, o troféu remete à tradicional imagem de São Jorge enfrentando o dragão. A imagem foi ressignificada pelo traço da artista: ao invés de lança, o santo empunha um microfone, e em seu capacete está uma câmera.   A edição 2021 do Troféu Audálio Dantas – Indignação, Coragem, Esperança contou com a curadoria da OBORÉ e a participação ativa e criativa de estudantes e professores do Projeto Repórter do Futuro, da equipe Rádio Brasil Atual, do Instituto Vladimir Herzog e dos Centros Acadêmicos Benevides Paixão (PUC-SP) e Vladimir Herzog (Cásper Líbero).   As entidades representativas apoiam o Troféu Audálio Dantas: ABI – Associação Brasileira de Imprensa ABRAJI – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo ACB – Associação dos Cartunistas do Brasil ACE – Associação dos Correspondentes Estrangeiros Agência Sindical AHA – Associação dos Amigos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba AJOVESP – Associação dos Jornalistas Veteranos do Estado de São Paulo APJOR – Associação Profissão Jornalista AQC-ESP – Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo ARFOC – Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de São Paulo Artigo 19 Barão de Itararé – Centro de Estudos da Mídia Alternativa CEDHU – Centro Nacional de Pesquisa e Documentação do Humor Gráfico Centro Acadêmico Benevides Paixão / PUC-SP Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes – Unesp Bauru Centro Acadêmico de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí Centro Acadêmico de Comunicação Social Franklin Tannús – UFU Centro Acadêmico Lupe Cotrim / ECA USP Centro Acadêmico Vladimir Herzog – Cásper Líbero Centro de Memória Sindical Clube do Choro de São Paulo CNTU -Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Colégio Equipe Colibri Comunicações Conectas Direitos Humanos DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar Diretório Acadêmico de Comunicação Social da Federal do Mato Grosso FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas FEPESP – Federação dos Professores do Estado de São Paulo FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação Hospital Premier IMAG – Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil INTERVOZES – Coletivo Brasil de Comunicação Social IVH – Instituto Vladimir Herzog Jornalistas & Cia OBORÉ Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo Prefeitura Municipal de Piracicaba / Secretaria de Ação Cultural Projeto Repórter do Futuro Rádio Brasil Atual Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental Rede ComCiência / Jornalistas de Ciência Repórteres Sem Fronteiras Salão Internacional de Humor de Piracicaba SEESP -Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo SINPRO SP – Sindicato dos Professores de São Paulo SJSP – Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo Sociologia e Política – Escola de Humanidades TVT – Televisão dos Trabalhadores UBE – União Brasileira de Escritores UNICAJor – União Nacional de Centros Acadêmicos de Jornalismo VIVACORD-Associação dos Moradores da Vila Cordeiro SERVIÇO Cerimônia de entrega do Troféu Audálio Dantas – Indignação, Coragem, Esperança Quarta-feira, dia 7 de abril, às 19h Canal YouTube da OBORÉ: https://www.youtube.com/c/OBOR%C3%89ProjetosEspeciais

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A dor da massa

  Por Roberto Garcia   Já vi gente dizendo que o Brasil é um caso perdido. Para eles, só se conserta com guerra civil. O seu presidente, esse mesmo, Jair, foi gravado, filmado, dizendo que na ditadura morreu pouca gente. Deviam ter matado pelo menos trinta mil. Prá ele isso não dói. Pimenta no olho dos outros… Parece que estamos com uma obsessão. Não paramos de falar nas cifras da nossa atual tragédia maior. Quanto foi hoje? Mil, dois mil, três mil, quatro mil? Lembra quando ficávamos chocados com uma morte, ou duas, resultado de uma injustiça? Mas e quatro mil num dia? Quando o Miguel Nicolelis dizia que isso ia virar uma hecatombe? Que um bonitinho aqui e outro ali dizia que era exagero, esse cara é um alarmista, deve ser do PT, da oposição. Muito possível que seja outro infiltrado prá semear confusão? E as projeções primeiro dele e agora de centros de pesquisa lá dos States dizendo que batemos em junho ou julho com meio milhão? Que fazer com os extremistas que chamam o presidente de genocida? Melhor matar esses também? Não é melhor abrir o comércio, os bares. Afinal, que mal pode fazer uma pizza, uma cervejinha? Tem os que acham que a questão central é a defesa da liberdade, sagrado direito de ir e vir. Que ninguém tem direito de restringir o que eu faço ou você. Esse fechamento parcial ou total não é o princípio da ditadura, desses governadores maldosos que nos querem impingir? Não sei quem acaba de dizer que agora os infetados e os mortos passaram a ser muito mais jovens, os mais resistentes, os que não deveriam temer. Não é coisa mais só de velho, desses que melhor fazem morrer. E daí, amiguinhos abre tudo e paga o preço ou fica fechado? Que vão escolher? Será que é mesmo preciso fechar até templos, igrejas, cultos e missas? Nem mais orar se pode nesse país. Será que tem que sair de casa, juntar um monte de gente prá fazer o que bem se pode quieto, calado, no seu canto, sem arriscar propagar o diabo do vírus e matar mais? A guerra chegou. Só não vê quem não quer.   Roberto Garcia é jornalista.

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Cativeiro sem fim denuncia violência contra crianças durante o regime militar

Por Sonia Castro Lopes Recontar a história, desvelar seus segredos, dar voz aos silenciados, lançar luz sobre episódios negados pela historiografia oficial, eis o papel do investigador.  À luz de novas teorias, o fazer historiográfico vai se processando a partir de diferentes olhares, utilizando-se de novas fontes documentais que, por sua vez, podem conduzir a distintas interpretações.  É no estreito diálogo entre teoria e empiria que se materializa a obra do historiador, mas não basta dominar a teoria se lhe faltar feeling para a pesquisa de campo. Cativeiro sem fim – a história dos bebês, crianças e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil – resulta de uma pesquisa de fôlego realizada por Eduardo Reina e comprova o que afirmei acima. Com formação no campo da comunicação social, o autor revela-se um historiador de ofício pela contribuição que fornece à historiografia sobre um período que, apesar de contar com uma expressiva produção bibliográfica, ainda oferece inúmeras possibilidades de investigação. Por isso, nunca será demais revisitá-lo. Se existem abundantes documentos e narrativas sobre crianças sequestradas durante os regimes de exceção na América Latina, especialmente na Argentina, Chile e Uruguai, em relação ao Brasil o assunto ainda não foi devidamente explorado. Ao recuperar a trajetória de crianças e adolescentes que tiveram a infância roubada, a identidade comprometida e a perda de seus referenciais familiares, Reina avança na compreensão de um período crucial de nossa história. Recupera episódios negados pelas forças armadas, escondidos nos porões da ditadura empresarial-militar que teve início com o golpe de 64 e aniquilou os direitos, a honra e a vida de milhares de brasileiros. O autor se alinha ao denominado jornalismo de redescoberta, um modelo de  jornalismo investigativo muito próximo à tarefa do historiador. Sem citar referenciais teóricos ou manifestar adesão a correntes  historiográficas, Reina vai nos apresentando aos excluídos, aos que vem ‘de baixo’, aos que  nunca tiveram lugar nem voz na história. Desvenda segredos acobertados por muito tempo dos quais só possuíamos vestígios e  persegue esses rastros movido pelo desejo de buscar fatos que façam avançar a história. Não houve aqui  necessidade de mencionar o ‘paradigma indiciário’ de Carlo Ginzburg (1) como arcabouço teórico para sustentar a análise dos fatos. O paradigma está lá para quem quiser ver como um método de conhecimento cuja força está na observação de pormenores reveladores que passaram despercebidos para muitos pesquisadores. O minucioso trabalho de pesquisa amparou-se em uma rigorosa revisão de literatura que incorpora obras jornalísticas, históricas e literárias, além de uma vasta produção acadêmica sobre o tema. Foram mobilizados documentos institucionais como os do Centro de Informação do Exército (CIE) e os relatórios de diversas Comissões da Verdade, além de diversas reportagens publicadas em jornais de grande circulação no país. A essas duas categorias de fontes foram acrescentados depoimentos obtidos após longa peregrinação às regiões onde os episódios aconteceram, o que permitiu ao autor realizar a triangulação de dados necessária à compreensão e análise dos fatos narrados. Ao todo foram dezenove as vítimas de sequestro e apropriação pelos militares. Do total, onze casos ocorreram na região do Araguaia entre 1972 e 1974, todos filhos de guerrilheiros e camponeses que aderiram ao movimento. Destes, seis eram adolescentes que foram encaminhados aos quartéis onde se processou um trabalho de cooptação e lavagem cerebral. Havia ainda quatro crianças, uma delas filha de um conhecido guerrilheiro filiado ao PCdoB, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, morto em 1974 e um bebê de poucos meses que foi encaminhado a um orfanato em Belém. Além das vítimas do Araguaia, foram relatados outros  casos ocorridos no Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, além do sequestro e desaparecimento de cinco crianças indígenas em Mato Grosso. Há que se registrar as dificuldades enfrentadas pelo investigador durante a realização do trabalho, especialmente na região do Araguaia, onde a memória coletiva registra atos de vigilância e intimidação feitas por membros do exército até o início deste século. Assim, o receio de retaliações comprometeu o depoimento de vários sujeitos que poderiam esclarecer e fornecer mais pistas sobre o crime cometido pelos militares contra os menores sequestrados. Apesar dos problemas relatados, os depoimentos permitem constatar como a oralidade é capaz de nos revelar o indescritível e toda uma série de realidades que raramente aparecem nos documentos escritos, seja porque são consideradas insignificantes ou inconfessáveis, seja porque são impossíveis de se obter por meio dos registros tradicionais. O contato com as testemunhas nos permite interpretar silêncios e esquecimentos, hesitações, lapsos, situações de extremo abandono. Impossível não nos comover com a história de Juracy, o menino sequestrado por engano que foi torturado e entregue à adoção por pessoas que nunca lhe dedicaram afeto, ou com a narrativa de Rosangela que apenas recentemente teve conhecimento da adoção e até hoje desconhece sua origem e a própria data de nascimento. Recorro a Michel de Certeau (2) para aplicar nessa guerra cruel os conceitos de tática e estratégia por ele cunhados e que me vieram à mente enquanto lia o livro de Eduardo Reina. Para o historiador francês, estratégia supõe uma posição dominante, trata-se do procedimento de quem manipula as relações de força e poder, no caso o exército brasileiro. Já a tática seria o movimento dentro do campo do inimigo, no espaço por ele controlado, a arte do fraco, ou seja, operações que dependem da surpresa e da astúcia. Essas categorias analíticas aparecem claramente diante do relato do forte aparato militar empreendido pelo exército brasileiro para abater 69 guerrilheiros munidos de armamentos precários e escassos. Mas não bastou ao exército capturar e matar de forma cruel os “subversivos” que ameaçavam a soberania nacional. Eles foram além. Mataram camponeses, mulheres e tantos outros que cooperaram ou tiveram envolvimento com os guerrilheiros. Sequestraram e se apropriaram de crianças e jovens como forma de cooptação e pressão para chegar até os pais ou mesmo evitar que fossem ‘contaminados’ pelas idéias dos que se opunham e resistiam à ditadura.  As noticias sobre a guerrilha quase não eram divulgadas, as estratégias do exército no combate aos guerrilheiros sequer eram mencionadas.

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