Construir Resistência

4 de abril de 2021

Páscoa é resistência

Por Adriana do Amaral   Pela manutenção da vida humana: pão e vacina para todos   Talvez o principal influenciador da atualidade não seja um político, um filósofo, um artista e nem um esportista. Uma das poucas vozes que são ouvidas no Brasil – e no mundo – é de um religioso. E não estou falando do #PapaFrancisco, mas de um pároco de uma pequena Igreja de São Paulo, o padre #JulioLancellotti.   Amado e odiado, é uma voz que ecoa além muros. Tudo o que o padre Júlio fala repercute. Vira notícia, charge e até lei.   Como o que aconteceu recentemente com o projeto de lei que proíbe obstáculos em via pública, a chamada arquitetura hostil, que impede que a pessoa em situação de rua possa descansar nas calçadas, marquises e embaixo dos viadutos. Inspirado numa ação do religioso, o PL 488/21, que altera o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001), foi aprovado pelo Senado Federal, em 31 de março, e será votada na Câmara Federal.   Na manhã deste domingo de Páscoa (4), padre Julio não poupou nem o ministro do Supremo Tribunal Federal, Kássio Marques Nunes. Ao criticar a reabertura dos templos em pleno agravamento da #pandemia da #Covid-19 no Brasil, ele justificou ter sido uma medida “formal e enviesada.   Para ele, testemunhar a fé não implica em se aglomerar em templos. Quanto à justificativa que teria sido uma medida “essencial para a liberdade religiosa”, alegou que essencial é a vacina. E disse: “muitos que vão aos templos testemunham o cofre”.   Afirmando não ser necessário ir aos templos, mas  “viver e testemunhar Jesus”, o pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo há muito ganhou as redes sociais, onde milhares de fieis ou admiradores assistem às missas virtualmente. Durante as cerimônias, o religioso dá verdadeiras aulas de história, sociologia, antropologia, geografia, cidadania e religião.   “Hoje o discípulo de Jesus é você”, disse o religioso instigando o ouvinte a combater a fome, a miséria. Para ele, celebrar a Páscoa durante a pandemia é manter a “resistência e a coragem”.   Vestindo uma estola presenteada pela bordadeiras de Minas Gerais, do coletivo Pontos de Luta, que tem ativistas em todo o território nacional, padre Júlio pediu que todos sejamos “pontos de luta e resiliência” no enfrentamento da #covid-19 e na manutenção da vida humana. Para isso, exigindo a vacina para todos, protegendo os mais humildes, consolando os que perderam os seus entes queridos. Além do “pão em todas as mesas”, ele pediu para que não falte oxigênio, leito, trabalho, casa, dignidade, vacina.   Entoando o canto alusivo à celebração da ressureição de Cristo, o nosso santo vivo disse que “o povo precisa se alegrar de novo”. Ressaltou que comemorar a Páscoa, hoje, é manter o compromisso com a vida de todos. Finalizando, disse que vivemos tempos de “resistência”.      

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Tempo de mudança: o carroceiro, a Copa e a Páscoa

Por Tião Nicomedes   Passagem para uma vida nova.     É  o significado da Páscoa. Assim aprendemos na catequese. Tempos que tínhamos casa, família e íamos à Igreja. Tirei essa, que é a chamada Semana Santa, para acompanhar um dia de carroceiro. Do centro de Sampa ao centro  da Penha. Lá vamos nós, partindo da #PraçadaSé ao Largo da Igreja do Rosário, fazendo o mesmo itinerário dos ônibus: Centro/bairro. Curtinha, a avenida Rangel Pestana logo vira a extensa  avenida Celso Garcia. Estando  no role, Senna, o carroceiro, seu  fiel amigo o viralata Pingo e eu . “Partiu missão”. Levar a mudança da Rosana. Coisa pouca: máquina de lavar roupas, fogão, botijão de gás e um forno microondas. O Nico cobrou barato e para compensar o frete ia fazendo o seu  corre de catador. Passando pelo Largo da Concórdia, o bairro do Brás . Cadê o povo? Sumiram sacoleiras, sumiu os ambulantes. Sumiu o trânsito outrora engarrafado. Tudo um silêncio só. Ah!   Celso Garcia! Quem diria que  essa avenida, um dia, ‘ia tá assim’? Quanto mais percorremos, mais espantados ficamos! Essa #pandemia  do #coronavírus está acabando com tudo. Esse vírus maldito. -Que? A Celso Garcia tá abandonada faz é  tempo. Bem antes da #Copadomundo no Brasil. O padrão #FIFA acabou foi com tudo por esse brasilzão afora. Se bem que… Depois teve as #Olimpíadas. O pau comeu . – Falando em Olimpíadas… Outra já era pra ter sido realizada, ano passado. No Japão. Sim, que a do Brasil foi em 2016.   A de 2020 seria no Japão, porém  foi adiada por conta da pandemia. Esse ano, 2021, talvez aconteça. Afinal já existem as vacinas. Mas os comerciantes estão quebrando mesmo. E por causa  do lockdown.          — Copa e Olimpíadas. Foi tanta treta, que resultou  na derrubada da presidenta Dilma. E na queda do PT. Até o Lula foi parar na cadeia, por conta dos 7 a 1 da Alemanha . Já essa #Covid-19… Trouxe  a pulga atrás da orelha  do Jair Bolsonaro. De volta o papo de impeachment do  presidente. Enfim, coisas da politica. Na qual tudo vira caso de polícia. – Santa confusão. Então é isso que a #Lavajato plantou na cabeça do povo? Todo golpe resumido à Copa e Olimpíadas? O que esta acontecendo no mundo? A pandemia exterminando com a raça humana. Só aqui em nosso país já passam de 300 mil pessoas mortas. São mais de 3 mil e já caminha para cinco mil morte diárias! Empresas falindo. Povo passando fome. Atrasos no Plano Nacional de Vacinação. Nem era prá estarmos andando nas ruas. Nem era prá você estar puxando carroça agora! Era prá estar  recebendo  auxilio, renda básica… O vírus está no ar. Nós estamos fazendo circular. Olha quanta gente na calcada. Quadriplicou a população de rua! Será que algum dia o planeta volta ao normal? -Taí. Falar de #Páscoa, resumindo tudo em chocolates. Querer compreender de  ressurreição? Sem entender a morte? O que é  normalidade… Amigo Bom é  Deus. Ele nos guarde e proteja. Que por nós só ele realmente. Que vacina contra o vírus já existem, mas vacina para políticos tomarem vergonha na cara, essa ainda não criaram. O viralata teve mais sorte. “Pingo,  sortudo, achou uma bolinha. Jogar a bolinha prá ele pegar. Brincar nos trouxe um certo alento… Um pouco de alegria misturada com esperança. Sebastião Nicomedes de Oliveira é “poeta das ruas”. Autor da peça teatral Diário de um Carroceiro e do livro As Marvadas é artista popular. Ex-catador e ex-morador em situação de rua, integra o MIPR (Movimento Internacional de População em Situação de Rua). crédito da foto: Tião Nicomedes    

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As montanhas de magnetita

Miriam Waidenfeld Chaves   Novembro no Rio de Janeiro. Sol escaldante. A paisagem melada se derrete. Apenas o som da passeata atravessando a janela do quarto de Ivan parece dar sentido à cidade. “Mariana: dois anos de impunidade” diz o cartaz que Ivan lê com esforço da janela de seu apartamento. No Rio de Janeiro há 40 anos, esqueceu-se das montanhas que cercam sua cidade.  Negras. Escavadas. Ivan corre para a varanda e as palavras de ordem ressoam em seus ouvidos. Sente o cheiro de maresia e se lembra das discussões com seu pai já morto: – Não sei por que essa mania de fazer faculdade no Rio de Janeiro. A engenharia daqui é excelente. – O senhor sabe que eu quero fazer engenharia naval. E é lá no Rio que fica a melhor! – Te conheço, Ivan. Você quer é ir embora daqui. Você detesta este lugar. Mas saiba que é com o dinheiro dessas montanhas que eu sustento essa família. Farmacêutico, Seu Benedito havia feito uma pequena fortuna com as ações da Belgo Mineira. Depois do ouro, o minério de ferro. Era a cantilena do pai. Nostálgico e com um uísque na mão, Ivan escuta o Grupo Uakti. Pensa em Itabira: – Ivan! Desce da mangueira e vem almoçar! Gritava sua mãe da cozinha. -Deixa eu ficar mais um pouquinho aqui. -Não, filho, desce já! E Ivan descia para os braços da mãe. – Não sei o que você tanto faz lá em cima. – Olho as montanhas que o pai tanto ama e penso na vida. D. Elvira morria de rir com a resposta do filho e juntos entravam para a cozinha. Gostava de Itabira. Das montanhas. Mas queria conhecer o mar. Não gostava do gênio do pai. Depois de muita hesitação, pega o telefone e liga para o irmão que mora em Minas Gerais. – Alô, Beto? – Ivan? – Sim. Como você está? – Pô, quanto tempo! O que deu em você prá ligar assim de repente? Dispara. – Senti saudades… – Não sei do quê. Você saiu daqui, deu as costas prá nós. Nunca mais voltou. E ainda por cima não quer acordo. Foi na onda do Felipe… Ivan não responde. Apenas respira fundo. Olha o mar pela janela. E Beto continua. – Você sempre gostou daqui. Seu problema era com o papai -É… -Sabe, acho que você não tem é coragem de assumir. E o Felipe como testamenteiro. Um esbanjador! Esse sim, não liga prá nada! Por isso quer vender a casa. E você, longe, aí no Rio, achou mais fácil concordar com ele! Ivan não responde. – Nossa mãe nunca iria perdoar. E você desde aquela briga com o pai parece que mudou. Sabe o que eu acho? – O quê? – Você bem que podia comprar a casa. E você tem dinheiro prá isso! – Tá certo, Beto. Agora tenho que desligar. Decide Ivan diante o tom alterado do irmão. Já é noite. A música do Grupo Uakti, a passeata e o telefonema para Beto martelam na cabeça de Ivan. Da janela, olha para a praia de Ipanema. Horizonte mar afora. Enxerga a mangueira, as montanhas de magnetita. Os abraços da mãe. *** Itabira. Seis meses depois. Ivan abre o portão. Coloca o carro na garagem. Senta no alpendre por uns minutos. Contempla a secura do canteiro. Abre a porta. Respira fundo e devagar entra na sala. Escancara as janelas e enxerga a mangueira. Esboça um leve sorriso. Sussurra: – Amanhã subirei naquela árvore! Olharei para as montanhas. Pensarei na vida.     Miriam Waidenfeld Chaves é contista e professora da UFRJ.

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Eita! Eles mataram Jesus Cristo!

Luis Otavio Barreto   A páscoa serve para lembrar que prenderam um homem jovem, o torturaram, o humilharam, colocaram-no sob o juízo de um homem medíocre e covarde, que o entregou a sorte de uma multidão enfurecida e ignorante, que foi preterido e, finalmente, assassinado cruelmente; humilhação da cruz e as dores físicas.   Jesus, andava à margem da sociedade; olhava pelos desvalidos, aleijados, pelas putas, possivelmente pelos viados, pelos famintos. Esse Jesus também fez e aconteceu no templo; soltou meia dúzia de palavrões em berros e tomou de um chicote para fazer a limpeza naquele lugar. Jesus nasceu pobre, no meio do cocô dos bichos,moscas, mosquitos e carrapatos, do fedor de um curral que em nada se assemelha aos poéticos presépios natalinos, com animais silentes, solenes pastando num jardim, como na música da Elis. Ele nasceu ali, no improviso. Nasceu já sendo perseguido pelo ego e pela covardia de Herodes.   Jesus, ainda moço, aos 33, foi, como vocês já sabem, assassinado porque fazia o bem. Seus algozes eram aqueles que achavam suas obras e seus ensinamentos, absurdos! Era a mesma gente que matava a pedradas as putas, as mulheres que julgava serem adúlteras, que desprezava os famintos, os aleijados e todas as minorias daquela época. Jesus foi um revolucionário! Queria acabar com aquela porra toda! O cara foi o maior modelo de perfeição de que se teve notícia, e não se trata de perfeição estética, muito embora creio que tenha sido um homem lindíssimo, vazado de luz e de olhar acolhedor, porém firme. Nada a ver com essa figura que convencionaram sê-lo.   O relato sobre o perdão dado àquela gente é recheado de uma aura poética, mas, acho mesmo que a coisa foi diferente. Cristo, já todo arrebentado, com o corpo rasgado, esfolado, furado e humilhado, do alto da cruz que jamais mereceu, olhou aquela gente horrorosa e, no auge de seu martírio e estado psicológico – que jamais alcançaremos – pensou: são uns patéticos, arrogantes e burros e então rogou a seu Pai; Perdoa, são uns imbecis, perdoa!Ele, homem, pediu ao pai.   Jesus, 33 anos, filho de José e de Maria, carpinteiro, foi covardemente assassinado depois de um julgamento ridículo, sob as mais absurdas acusações. O estado e o povo mataram a Jesus Cristo. E hoje, matariam outra vez. Aliás, matam!   Luis Otavio Barreto é músico, pianista e professor.

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