Construir Resistência

29 de março de 2021

Juízes para a Democracia denunciam:

A população brasileira é alvo de uma política da morte   A conteúdo da carta assinada por 32 entidades representativas está sendo divulgada em francês, inglês, espanhol e português. O documento pede socorro internacional,   Leia a íntegra do documento no link:   https://www.ajd.org.br/noticias/2852-em-carta-aberta-a-comunidade-internacional-a-ajd-e-entidades-da-sociedade-civil-pedem-socorro-e-suplicam-por-medidas-que-protejam-a-vida-de-brasileiros-e-brasileiras    

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Quem lê tanta notícia – Parte 1

  Por Adriana do Amaral   Caetaneando, me vem à mente a canção de outras épocas, quando o Sol ainda era vendido nas bancas de revistas como um farol que iluminava a escuridão da informação. O poeta perguntava: quem lê tanta notícia? Mas ele podia caminhar contra o vento na década de 1967. Ou não? Eram tempos difíceis, então, quando vigorava a ditadura militar no Brasil.   Depois de um final de semana quente, climaticamente falando, na manhã desta segunda-feira (29) mergulhei na leitura das suítes (repercussão) das notícias e manchetes. É surpreendente como a democracia brasileira nos faz ler tanto lixo e como a notícia virou um luxo para poucos que conseguem interpretá-la ou têm acesso a ela.   A notícia mais chocante, é claro, repercute o caos na saúde pública nacional, que transformou o Brasil num cenário de crise humanitária nunca vivido antes. Fui dormir pensando que não há mais carros funerários para transportar os corpos das vítimas da #Covid-19 na maior cidade do país e que pelo menos 50 carros particulares foram contratados pela Secretaria Municipal das Subprefeituras. Seria o “uber” da morte?   Tão chocante quanto é a repercussão, inclusive através de notícias falsas e manipuladas, sobre o surto vivenciado pelo policial Weslei Soares, na região turística do Farol da Barra, em Salvador, na Bahia. Fora de si, o soldado jogou pertences dos ambulantes no mar, disparou tiros de fuzil para o alto e contra os colegas da Polícia Militar. Após três de negociação ele foi dominado e depois socorrido no Hospital Geral do Estado.   Em nota oficial, o comandante do Bope, Major Clédson Conceição, explicou  que o soldado alternava momentos de lucidez com acessos de raiva. “Os nossos objetivos primordiais são preservar vidas e aplicar a lei. Buscamos, utilizando técnicas internacionais de negociação, impedir um confronto, mas o militar atacou as nossas equipes. Além de colocar em risco os militares, estávamos em uma área residencial, expondo também os moradores”, informou.   Outras duas notícias chamaram a minha atenção: a demissão do Ministro das Relações Exteriores, que por incompetência conseguiu fazer o Brasil virar piada internacional, nos isolando, diplomaticamente falando, do resto do mundo e o ressurgimento da eterna “rainha dos baixinhos”, Xuxa Meneghel. O primeiro caiu após pressões internas, inclusive com a chancela da assinatura de 300 embaixadores. A segunda perdeu a oportunidade de ficar calada.   “Serviriam para alguma coisa antes de morrer”, justificou Xuxa ao sugerir que as pessoas em situação de cárcere poderiam ser usadas como cobaias humanas em testes químicos. Logo ela que se diz protetora dos animais a ponto de não comer carne não se importa com a qualidade de vida humana? Xuxa pediu desculpas, diz ter pensado uma coisa e falado outra, mas ela é uma mulher experiente, treinada para falar em público. Desdizer não implica que iremos esquecer o dito.   Quanto ao ministro, o sucessor deve ser um tão ruim ou pior do que ele. Afinal, nada muda no “quartel de Abrantes”. Pelo menos nesse Brasil da #pandemia, que mais parece hospício.   Crédito da ilustração: Instagram UJS Brasil        

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Na UTI, negacionistas se arrependem: “Contaminei minha família”

Recomendamos a leitura da matéria: Por Rodrigo Ratier – site Ecoa Ilustração: Gomez – Correio Brasiliense  Por atuar como cuidadora de idosos em um asilo paulistano, Maria Julia (nome fictício) fazia parte do grupo prioritário para vacinação contra o novo coronavírus. Rejeitou a imunização e seguiu trabalhando. Os sintomas de dor de garganta e febre Maria Julia associou a uma gripe. Quando veio a falta de ar, decidiu testar para covid. Positivo. Recorreu aos remédios do — suas palavras — “kit do nosso presidente”. Torcendo em casa pela cura, teve os planos interrompidos por uma enorme dificuldade para respirar. No pronto socorro da rede pública, uma tomografia revelou grave comprometimento dos pulmões. O caso inspirava cuidados em UTI, mas no dia da internação, 22 de março, o hospital só dispunha de leitos improvisados. “Ela estava no cateter de oxigênio sofrendo para caramba. Superculpada, superarrependida. Achou que as coisas iam funcionar, que não era uma doença perigosa. Chorou durante toda a nossa conversa”, afirma Ariel (nome fictício), profissional de saúde que atua na linha de frente do combate à covid na cidade de São Paulo. Por temor de represálias, a fonte vetou a divulgação de seu nome ou de outras informações que possibilitem identificá-la. Detalho ao final do texto os motivos de pedido de sigilo. Ariel conta que casos como o de Maria Júlia são “tristemente comuns”. “Muitos pacientes falam que não usavam máscara, que tomaram ivermectina ou o ‘kit covid’”. Em algumas situações, há descrença quanto à própria existência da doença. Caso da aposentada Esther, que deu entrada com quadro severo de falta de ar. Mesmo necessitando de ajuda externa para respirar, Esther insistia: “Essa doença é uma invenção”. A todo tempo tirava a máscara de oxigênio e, aos médicos, exigia ir para casa. A alternativa da equipe foi organizar uma videochamada com um parente próximo. “Expliquei ao familiar que a ideia era incentivá-la a seguir o tratamento. A capacidade pulmonar estava piorando rápido e a possibilidade de intubação era real”, conta Ariel. O combinado foi cumprido. O parente mencionou um caso de um conhecido internado que havia vencido a doença. “Eu não tenho nada, pede alta para eles”, respondia Esther. O médico que acompanhava a ligação propôs um teste: “Vamos tirar a máscara de oxigênio?”. Ofegância imediata. Em poucos segundos, o monitor de saturação registrou queda de 90% para 75%. “Não importa qual doença seja, a senhora precisa de ajuda”, afirmou Ariel. “Vamos continuar investindo no tratamento”. Esther concordou. Intubada após piora, Esther morreu dois dias depois da ligação. “Vejo relação direta entre as falas do presidente minimizando a pandemia e esse tipo de caso”, diz a profissional de saúde. “Isso nos afeta porque as pessoas que aderem ao ‘tratamento precoce’ ficam em casa esperando uma melhora que não vem, porque o ‘kit’ não funciona, e chegam ao serviço de saúde mais graves”. Às vezes, o descaso tem custos maiores. Maria Julia, cujo relato abre este texto, seguiu frequentando a casa dos pais mesmo após apresentar sintomas. Ambos pegaram covid e foram internados em UTIs. Um deles está intubado. “Contaminei minha família”, lamentava-se para a equipe médica. Em telefonemas com parentes, as recomendações mudaram. “Se protege direitinho, usa máscara, por favor”. A cuidadora apresentava quadro estável ao ser transferida para uma UTI com melhor estrutura em hospital da rede pública. * * * Sobre o sigilo da fonte: na instituição em que a profissional de saúde atua, vigora uma norma que proíbe funcionários de conceder entrevistas sem autorização da assessoria de comunicação. Comum no serviço público, esse tipo de mecanismo é uma forma de tutelar o fluxo de informações. Mesmo conflitando com a Constituição (“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”), as chamadas “leis da mordaça” causam constrangimento e medo em servidores em todo o país. A responsabilidade judicial por uma informação anônima é de quem a publica. A coluna concordou com o pedido de off-the-record (informação cuja fonte é mantida em sigilo) pela relevância do relato.

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Som nosso de cada dia

Dia após dia… Por Carlos Monteiro   Quantos sons fazem parte da nossa vida? Quantos sons fazem parte da nossa história? Quantos chamados fazem parte do nosso pertencimento, da nossa memória-sonora-afetiva? Não são ruídos, são sons, chamados, muitas vezes burlescos, insana sonoridade, reminiscências especiais.   Lá em Santa, recordo, ainda quase rebento, da ‘Vaca Leiteira’. Um pequeno caminhão tanque adaptado que vendia, obviamente, leite de porta em porta. Não prezava pela higiene. O motorista era ao mesmo tempo também o atendente e o caixa. Consistia em levar seu vasilhame, que era abastecido por meio de uma torneira na traseira do veículo. Foi proibido logo depois. Se descobriu que misturavam uma série de ‘insumos’ ao lácteo: urina das vacas, formol, água e por aí vai. Foi substituído pelo leiteiro da Vigor, com garrafas fechadas por pequenas lâminas de alumínio. O produto passou a ser pasteurizado. Deixava-se a garrafa vazia com um passe adquirido previamente, que era substituída por uma envasada. Mas, o que isso tem a ver com som? O pequeno caminhão contava com uma buzina em som de mugido que anunciava sua presença. Muuuuuuuuu!   Outros mascates interessantes, retratados no início do século XIX por Jean-Baptiste Debret e nos anos 1910 pelo fotógrafo Marc Ferrez, tinham ‘chamamentos’ muito peculiares. Era no gogó, não tinha essa de alto-falante, de amplificador, de música-tema. Quando muito lançavam mão do megafone em latão ou do som tirado da pedra de amolar. Os afiadores, mais harmoniosos, chegavam à solar algumas músicas, melodias em puro silvo. Um deles tocava os hinos dos times de futebol carioca.  O gazeteiro da Casa do Pequeno Jornaleiro e seu ‘exxxxxtra, exxxxtraaaaa’. O verdureiro e seu cesto recheado de hortaliças e um tonitruante ‘verdureiiiiiiiiiiiiro’, o triciclo do tripeiro que gritava ‘oiii o bucho, tem bofe, tem tripa, tem coração, rimmm e figoooooo’! Um dia, atrevido, fui até ele e, com jeito, expliquei que não era figo e sim fígado, no que fui retrucado: — Ó menino, achas que sou burro? Estou a saber. Assim chamo mais atenção.    Sábio, fazia merchandising sem sabê-lo.    Tínhamos o garrafeiro, maldosamente apelidado de ‘burro sem rabo’ e seu sotaque transmontano; ‘garrafeiiiiro’, heranças portuguesas, muitos fizeram fortunas montando espaços para compra de recicláveis. Foi o precursor do ‘carro do ferro-velho’ está chegando à sua porta. Compro geladeira velha, ar-condicionado velho, latinha de cerveja velha… tenho dúvidas; não compra de refrigerantes? Alguns se modernizaram e oferecem serviço de ‘limpeza do quintal catando todas as tralhas’. Música não pode faltar, na maioria das vezes gospel… “…uma nova história…/…E tudo aquilo que perdido foi…”, de Fernandinho, troa nas trombetas das Kombis dos cacarecos perdidos num canto qualquer da existência passada. Romildo Guerrante e Christina Castello, dois pândegos, foram ao reciclador motorizado para saber se comprava ‘mulher velha’. Receberam um sorriso em troca.   Música marcantes fizeram história e, por outro lado, quase acabaram com ela. “Für Elise” de Ludwig van Beethoven infernizou nas chamadas em espera das URAs – unidades remotas de autoatendimento – quanto nos carros da Ultragás. Um sacrilégio em 120 decibéis, atualmente substituída por versões tecnopop, que finalizam com um sonoro ‘oluuuugássssssss’ ou na versão “New Age” ‘ultragássssss’, quase uma Enya.   Com a motorização vieram o ‘carro da pamonha’; ‘olha as pamonhas quentinhas, feitas do puro milho-verde’! O ‘carro do ôvo’; ‘…são trinta ovos, eu disse trinta ovos branco por dezzzzz Reais freguesa’! O ‘carro do pão’; ‘ é o carro do pão. Três pacotões de pão por dez Reais’. O ‘caminhão da laranja’, o ‘caminhão da banana’, o ‘caminhão do abacaxi’ que aprimoraram para o ‘caminhão das frutas’. O berreiro sempre o mesmo; ‘ olha a laranja, o abacaxi, olha as frutas direto do produtor. Eram vendidas no cento. Vieram para tudo: peixe, queijo e goiabada, nosso delicioso Romeu e Julieta, camarão… Há outros até engraçados como o ‘carro da Cândida’. Não se trata da fofoqueira televisiva dos anos 1960, retratada por Roberto Carlos em “Mexericos da Candinha”. Cândida, em São Paulo, é a água sanitária carioca. Imortalizou-se com esse nome por conta de uma marca pioneira, pura metonímia. O tal carro ‘está chegando a sua rua freguesa’, oferece os mais variados produtos de limpeza, feitos, segundo eles, de forma artesanal.     Atualmente a coisa está eclética e com vários meios para transportar os produtos ou serviços; o padeiro e sua buzina do Chacrinha vendedor de doces sonhos físicos e engordativos.  Impressionante que ele nem precisa gritar mais, basta uma buzinada, em sua bicicleta provida com dois jacás, que imediatamente vai para o trono sem desclassificação. O ‘gol das quentinhas’ por módicos ‘dez Reais e dois pedaços de carne’, o gladiador do pão nosso de cada dia, com sua biga pelas ruas de Botafogo e ‘armadura’ formada por tampinhas de alumínio próprias para a proteção de ralos das pias, vendendo toda sorte de bugigangas úteis. Uma espécie de loja do 1,99 ambulante. O Vassoureiro e seu sortimento completo de itens, inclusive os antiquados espanadores, que mais deviam chamar-se espalhadores. A carrocinha de sorvete e as famosas ‘cinco bolas sortidas por um Real’. O paneleiro que é uma mão na roda para a dona de casa. O carro de som anunciando produtos e serviços. Um verdadeiro shopping a céu aberto em delivery.   Para quem mora próximo a uma delas, os sons das feiras-livres são arrebatadores e cheios de chavões lugar-comum: ‘mulher bonita não paga, mas também não leva’. ‘Na minha mão é mais barato’. ‘Baixooouuuu, agora é três’!!! ‘Chegou o pião mágico’. Qualquer criança brinca e se diverte, não requer prática nem tampouco habilidade, é lançamento…’. Esse comércio tem lá seu encantamento. Quem nunca foi comer uma cavaquinhas na Feira da Glória ao som de samba de mesa ou um pastel ouvindo chorinho na Feira da Glicério? Caixinha obrigado!   Com o advento dos carros por aplicativos surgiu uma nova profissão: agenciador de passageiros para táxis. O sujeito fica ali gritando feito um louco ‘táaaaaaxi senhor, táaaaaaaaaaaaaaxi senhora?’ a fim de cooptar usuários para o serviço em ponto próximo. E como

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Abil

Miriam Waidenfeld Chaves   Quando conheci Abil, já tinha mudado de nome. Decidira chamar-se Alberto, mais palatável e fácil de ser assimilado pelas bandas daqui. Muito moço, mudou seu destino: atravessou o oceano em busca de uma nova vida nas Américas. Intrigada com tamanha peripécia, os meus poucos anos, entretanto, não permitiram que, de imediato, eu compreendesse os motivos desse ato, cujas consequências me pareciam  devastadoras: deixar a família e  sair mundo afora. Com o tempo, entendi que fugir da guerra seria um motivo justo. Hoje já faz mais de 100 anos dessa história, que insistentemente eu pedia para ser recontada, quando durante as férias me encontrava na casa de meu avô Alberto, em Minas Gerais, terra que escolhera arribar ainda muito jovem e solteiro. Descobri que Abil havia nascido em Rosh Pinna – Alta Galileia -, região onde os primeiros judeus oriundos da Romênia e da Rússia se estabeleceram por volta de 1882, com o intuito de construírem o Estado de Israel. Abil crescera entre as batatas plantadas pela mãe, Léa, e os estudos junto com o pai, Marduché. Cercado por uma floresta de cedros, corria desesperado atrás de passarinhos, junto com Samir, seu melhor amigo muçulmano. A falta de mais ingredientes para essa parte da história que mais me parecia uma fábula de Hans Christian Andersen, deixou-me inconsolável nos meus 13 anos. Intuí que o fio dessa meada era tão turvo quanto uma tempestade de areia no deserto de Neguev: cegava os olhos e apagava os rastros de uma história não contada. Afeiçoada a fantasias, mais tarde acabei acreditando que entre o reino encantado dos campos de cedro da Galileia e a terra brasilis, onde Abil desembarcara ao alvorecer do século XX, haveria um mar de mistérios e recordações não reveladas.                                                                                                   *** Já do outro lado do planeta, Abil abruptamente resolve mais uma vez mudar seu destino: em vez de aportar em Buenos Aires, destino final de sua viagem no Vapor Vitória e onde amigos o esperavam, resolve descer no Porto de Santos. Dizia-me estar cansado do alto mar e ansiar por terra firme. E eu, estupefata com suas explicações, me dei conta que o acaso definiu minha existência. Primeiro, alojou-se no Rio de Janeiro, onde percorreu suas ruas vendendo panelas. Depois, circulou pelas Minas Gerais como caixeiro viajante, até arribar em Estrela, cidadezinha do alto da Serra da Mantiqueira. Ali fincou raízes. Conheceu minha avó Alzira, casou-se e teve três filhas: Raquel, Ruth, minha mãe, e Diana, cujos nomes homenageiam a cultura que abandonara. Com o tempo, tornou-se um próspero comerciante. Sua loja, Fornecedora, como o próprio nome diz, à época fornecia material de construção para todas as cidades da região. Seu orgulho! Com 75 anos, faleceu na cidade que adotara para si, em Minas Gerais. E dali só saíra para desfrutar das águas do mar no Saco de São Francisco, bairro aprazível de Niterói, onde sua filha Ruth morava. Lembro-me até hoje de seu calção de banho marrom!                                                                                                    *** Pouco soube de Abil. Conheci apenas Alberto. Mas quando meu avô dizia que Edward G. Robinson, famoso ator de cinema dos anos 1940, era seu primo que imigrara para os Estados Unidos, sabia que era Abil se revelando para mim. O rádio à válvula onde escutava notícias em línguas incompreensíveis e a fotografia do avô  rabino pendurada na parede de sua sala de visitas também se transformaram em pequenos indícios a respeito da história desse jovem viajante. Entretanto, ao receber de minha mãe uma caixa de sapatos com perfume amadeirado, o mar de mistérios que pairava sobre a vida de meu avô Alberto é desfeito. Ali encontrei um quipá, cartas, fotografias, pequeninos objetos e algumas folhas secas de cedro. Emerge dessa relíquia uma história de amor impossível, vivida às escondidas por entre a floresta de cedro que definia a fronteira entre as casas de Abil e Aysha, irmã de Samir. Finalmente, pude entender que a disputa por território entre muçulmanos e judeus sionistas, em pleno Império Turco Otomano, fora a guerra da qual Abil sempre desejou fugir. Não procurou escapar dos prenúncios da Primeira Grande Guerra, como sempre supus. No íntimo, fora o desfecho de sua história de amor a razão de sua partida: a família de Aysha e Samir deixa Rosh Pinna e retoma sua tradição nômade ao se juntar à tribo beduína El-Zangariya no deserto sírio. Sem condições para iniciar uma batalha inglória, o jovem amante resolveu imigrar para o Novo Continente em busca de uma nova história.                                                                                             *** Hoje, em meu apartamento, o rádio, a fotografia de meu tataravô e as fotos de Abil na floresta de cedro com Aysha e nas escadas do vapor Vitória embalam a minha vida e me conectam com Abil, meu avô Alberto, tão querido.                

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