Construir Resistência

27 de março de 2021

O “chanceler” que fala tupi

Roberto Garcia   Confesso, não sou bom suficiente. Não falo tupi-guarani. Devia. Dei prioridade errada. Embarquei na manada. Não de cabeça, é verdade. De leve. Estudei português, latim, grego, russo, alemão, inglês. Até arranhei japonês. Nada profundo, bastaram algumas aulas. Achei que se precisasse avançaria mais tarde. Não serviu para nada. O pouco que aprendi, esqueci. Qual foi o meu choque, pouco mais de dois anos atrás. Ouvi o discurso de posse do itamarateco aloprado. Ele me humilhou. Ali, diante das câmeras, ele soltou umas sentenças em tupi. Com meus botões, descobri. Fiz tudo errado na vida. Enquanto esse rapaz promete, eu só caminho prá trás. Teria sido muito melhor aprender essa língua. Prá mim já é tarde demais. Ele aprendeu e foi longe. E foi dito e feito. Quantos de vocês lembram, de chanceler da república? Um, o Amorim, dois, sei lá. Certamente lembram do ponta-esquerda do Guarani. Do goleiro do Santos. Do jogo épico do fla-flu. Das pernas da loira, nem se diga. Do topete invejável do rapaz de Hollywood. Mas diplomata? O que é isso? Prá que serve? Pode ter importância, não sei descrever. Ah, já sei. O barão do Rio Branco. Esse sim. Estava na nota. Não sei se do cruzeiro ou do real. Morram de inveja os amigos. Tem um que se destacou. Estrela de primeira grandeza. Brilha aqui, na OEA, em Lima, na ONU, até no Eliseu. Tem aliados no mundo. É comentado. Citado como exemplar. O Brasil andava ofuscado. Agora não mais. Eduardo nos levou à notoriedade intercontinental. Mais que isso só a igreja universal. Mas este mundo é injusto. Estão a criticar. Nem os indígenas reconhecem. Ele aprendeu a língua deles. Até soltou umas frases. Não sei se sabe o suficiente para negociar um novo tratado. Que assegure que índio se ajuda, mas se deixe em paz. Nada de penetrar nas terras deles. Ou de mudar a cultura. Não nascem em pecado. Vivem com a natureza. Nem pense em salvar a alma deles.. Deixe-os lá com suas crenças ou ausência delas. Calcule, daqui a pouco eles terão que pagar dízimo, prá igreja universal. Inclua esse item aí. Não deve, não pode. Mas pensando bem, nossos índios não merecem. Nem tratado dessa gente. Vamos deixá-los quietos, que eles têm o que fazer. O chanceler fez um bom trabalho. Agora merece descansar. Timbuctu prá ele. Lá tem ar bom e limpo, prá ele respirar. As outras capitais se ajeitam. Vão sofrer pra se adaptar. Mesmo sem o brilho desse gênio. Não precisa perder o sono, deixe que eles se viram. Já os que serviram o rapaz, com devoção exemplar, também vão encontrar lugar. Na vida privada, que eles tanto elogiam. Tem muito carro de pipoca, precisam de bom empreendedor. Vão demonstrar capacidade e isso eles tem de sobra. Liberdade, para eles, sem amarras. Na falta disso, tem uma base lá na Antártida. Pra negociar com pinguim. O certo é que Eduardo, esse não dá prá aguentar. Se deixar ainda traz o estado islâmico, não tem amizade melhor. Ou tirem logo esse rapaz. Antes que a coisa piore. Tirem também o Jair. O Salles vai de lambuja. A Damares vai de graça. Guedes tem prá onde ir. Ah, tive uma idéia. Que tal mandar todos pro espaço, com o nosso astronauta, em foguete de primeira classe?   Roberto Garcia é jornalista.

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A pátria dos mascarados

Sonia Castro Lopes   Teatrinho  de quinta. Na última sexta feira (26), obedecendo às ordens do capitão, o ministro da ciência, tecnologia e inovação, o astronauta Marcos Pontes – que até hoje não disse a que veio – juntamente com o recém-empossado ministro da saúde, Marcelo Queiroga, improvisaram um pronunciamento para enrolar o povo que ainda dá crédito a esse desgoverno.   Ungidos de uma autoridade que não possuem, os dois tentaram convencer a galera de que o governo está se empenhando em debelar a maior crise sanitária de todos os tempos. Até Zé Gotinha, utilizado para dar credibilidade ao evento, demonstrou visível constrangimento. Sabia que estava mal na fita.   Na verdade, o objetivo da farsa era minimizar a visibilidade política do governador João Dória (PSDB-SP), que pouco antes havia anunciado em rede nacional a vacina ButanVac,  produzida pelo Instituto Butantan de São Paulo.   Sentindo-se ameaçado, o capitão ordenou aos seus asseclas que fizessem um pronunciamento anunciando à imprensa o registro junto à Anvisa do pedido de autorização para a produção de outra vacina, a Versamune, financiada  pelo governo federal e desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto.   Evocando a ‘pátria de chuteiras’, expressão cunhada pelo genial Nelson Rodrigues (título de um de seus livros) para descrever a união e o entusiasmo dos brasileiros em torno da copa do mundo, Queiroga propôs o lançamento do slogan ‘pátria de máscaras.’ Para quem representa um governo negacionista que até bem pouco tempo chamava de ‘maricas’   quem usava máscara e pregava o isolamento, será que estamos progredindo?   O ministro discorreu sobre a importância de vacinar toda a população brasileira e admitiu que a quantidade de vacinação ainda não é a ideal, mas salientou que o Brasil, em números absolutos é “o quinto país que mais vacina no mundo.” Ora, dizer isso para uma população desinformada é pura demagogia.   Em termos relativos essa falácia cai por terra. Qual a porcentagem de brasileiros efetivamente vacinados até agora? Pelo mapa de vacinação da covid no Brasil (atualizado até o dia 26/3), um total de 14.883.220 pessoas recebeu a primeira dose sendo que apenas 4.640.586 receberam a segunda. O que esses números representam em relação à população do país?  Pouco mais de 7% no primeiro caso e 2,19% no segundo.   Da forma como foi anunciada pelo ministro – vacinação em termos absolutos – a estatística é um prato feito para os apoiadores do ‘mito’ espalharem em suas redes que o Brasil está entre os países que mais vacinam seus habitantes. Realmente, estamos diante da pátria dos mascarados.  

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Bailarina

Renata Corrêa Há dores que dançam Como bailarinas na ponta dos pés Pisam, saltam, rodopiam Sobre o palco arranhado do dia novo.. Num giro lançam perfume Perfurando da calma às narinas… Cheiro tão familiar, Incenso de naftalina, Embolorado em figurinos Rotos e antepassados Guardados em baús… Conheço as coreografias de cor E na contradança da minha vontade, Sem aplausos, Prolongam o espetáculo, Não saem de cena, Repetem-se em bis! Pisam… Saltam… Rodopiam… Sigo seus passos em dueto, E canto lágrimas em falsetes…   Renata Corrêa é poeta, professora e ativista cultural.

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Os amigos de Hitler

Um texto de Eduardo Galeano “Os amigos de Adolf Hitler têm má memória, mas a aventura nazi não teria sido possível sem a ajuda que deles recebeu. Como seus colegas Mussolini e Franco, Hitler contou com o precoce beneplácito* da Igreja Católica. Hugo Boss vestiu seu exército. Bertelsmann publicou as obras que instruíram seus oficiais. Seus aviões voavam graças ao combustível da Standard Oil [hoje Exxon e Chevron], seus soldados viajavam em caminhões e jeeps da marca Ford. Henry Ford, criador desses veículos e do livro O judeu internacional, foi sua musa inspiradora. Hitler agradeceu por tudo condecorando-o. Também condecorou o presidente da IBM, a empresa que tornou possível a identificação dos judeus. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. Joe Kennedy, pai do presidente, era embaixador dos Estados Unidos em Londres, porém mais parecia embaixador da Alemanha. E Prescott Bush, pai e avô de presidentes, foi colaborador de Fritz Thyssen, quem pôs sua fortuna à disposição de Hitler. O Deutsche Bank financiou a construção do campo de concentração de Auschwitz. O consórcio IGFarben, o gigante da indústria química alemã, que depois passou a se chamar Bayer, Basf ou Hoechst, usava como ratos de laboratório os prisioneiros dos campos, e além disso os usava como mão de obra. Estes operários escravos produziam de tudo, incluindo o gás que ia matá-los. Os prisioneiros trabalhavam também para outras empresas, como Krupp, Thyssen, Siemens, Vasrta, Bosch, Daimler Benz, Volkswagen e BMW, que eram a base econômica dos delírios Nazis. Os bancos suíços ganharam uma nota preta comprando de Hitler o ouro de suas vítimas: suas joias e seus dentes. O ouro entrava na Suíça com assombrosa facilidade, enquanto a fronteira estava completamente fechada* para os fugitivos de carne e osso. A Coca-cola inventou a Fanta para o mercado alemão em plena guerra. Nesse período, também Unilever, Westinghouse e General Eletric multiplicaram ali seus investimentos e suas ganâncias. Quando a guerra terminou, a empresa ITT recebeu uma milionária indenização porque os bombardeios aliados haviam danificado suas fábricas na Alemanha”.  

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Estamos em obras

  RETROFITANDO A VIDA   Por Carlos Monteiro   Estamos em reforma para melhor servi-lo. Em obras por um futuro melhor, quase uma EMOBRAS neste momento de total consciência coletiva. O mestre de obras, o projetista, o arquiteto e o engenheiro somos nós, uníssonos por cidades mais acolhedoras, mais compromissadas com a coisa pública, com o cidadão, com a humanidade e o bem comum.   É hora de ‘retrofitar’, modernizar, efetivar o progresso com matizes vibrantes e cores, muitas cores, todas as cores do disco de Newton e da paleta do Criador. Não importam os tons, não importa o que representam, não importa se formam o arco-íris. Cores são fundamentais numa reforma, dão vida, trazem calor, luz e esperança. Precisamos deixar os tons de cinza apenas para destacar obras de arte e no cimento queimado que dá bossa e ar de despojamento na arquitetura moderna como bem usa Chicô Gouvêa.   Não é apenas uma caiada, uma maquiagem em tintas baratas à base d’água, anlininadas com corante Xadrez ou cal virgem. É uma reforma estrutural. Há que se rever os alicerces, há que se recalcular a base, há que se usar concreto protendido. Há que se reerguer paredes, derrubar muros. Lâminas de vidros devem substituir janelas pequeninas, para que a luz do Sol possa brilhar mais uma vez, chegando a corações esperançosos, ansiosos por dias melhores, por mais saúde e menos egoísmo. Que prevaleça o bom senso em detrimento ao capitalismo selvagem e desenfreado onde a egolatria parece ser a palavra-chave.   É hora de se erguer patamares que deem sustentação a paredes mágicas, formadas em desenhos lógicos. Uma lógica consciente, humanizada, perseverante, concreta, frutífera e real. Onde o sentimento seja de coletividade para o bem de todos.   Nos jardins da história, o paisagismo deve ser determinante em que o restolho seja húmus, a semente do mal seja queimada para sempre e renasçam apenas flores de amor. Rosas que exalem perfumes roubados, jasmins emoldurados, angélicas inebriantes. Jardins suspensos naturais, onde a floresta ‘fale’ mais alto, onde o canto dos pássaros tenha mais ‘voz’, onde as cascatas sejam somente véus perenes de água fresca, chegadas ao lindo lago do amor.   Reformar é preciso. Em tempos de pandemia, de home office, nunca se reformou tanto, nunca tantas obras aconteceram ao mesmo tempo, nunca tantas melhorias físicas e estruturais foram realizadas. É hora de mudança, é hora de aprimorar, é hora de progresso. Reformar é preciso! Diria o poeta: “… viver é mais que preciso…”. Para se viver um grande amor, é preciso uma pitada boa de ajustes. Reformar é preciso! Reformas íntimas de caráter, com menos egocentrismo e egoísmo e mais, muito mais, de pensamentos voltados para outrem, voltados para o bem maior que é a vida.   No sucesso de “A Favorita do Rei”, não como o conto de fadas baseado em fatos históricos, mas na realidade da sobrevivência, numa ‘jogada estratégica’, a pandemia receba o impacto do estancar das aglomerações nesse período de isolamento e reflexão. Que definitivamente, ela dê uma trégua. Que cesse todo sofrimento e tristeza que amargam e dilaceram tantos corações. Que lágrimas não sejam a rega da saudade no despertar do amanhã melhor e mais justo para todos.   Neste megaferiado de dez dias, estamos em reforma para melhor atendê-lo e melhor servi-lo! Para dar mais importância ao coletivo e ao bem maior que é viver em paz.   Não nos desculpamos pelo incômodo! Valorizamos a existência. Precisamos urgente retrofitar o pensamento coletivo para o bem maior que é a vida.   Vacina já para todos!   Carlos Monteiro é jornalista e fotógrafo.  

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