Construir Resistência

25 de março de 2021

No país de não leitores cartas pra que te quero?

Por Adriana do Amaral   Há um ano, quando eclodiu a #pandemia no Brasil, podíamos ter aprendido as lições que vinham de longe, dos países afetados pela #Covid-19 antes de nós, mas não o fizemos. Choramos pelos italianos, mas não choramos pelo Brasil. Afinal, quem se importava com aqueles brasileiros desconhecidos? Hoje, os mortos começam a ter nome, rosto, histórias, não é mesmo?   Há um ano, as manifestações se limitavam às “cartas de protestos”, divulgadas por entidades diversas que registravam a sua indignação. Hoje, as cartas são escritas por pessoas mais poderosas: empresários e senadores que buscam “soluções”. Ou meramente lavam as suas mãos em tinta?   Hoje, no grande cemitério que se transformou o Brasil, os que pedem a “ajuda internacional” e somam ao coro dos descontentes são os mesmo que se calaram no decorrer de 2020 deixando a ganância econômica do lucro e poder absoluto permitir a #pandemia vencer. Quem deles cobrou políticas públicas? Quem deles votou pelo impedimento? Quem deles doou parte das fortunas? Quem deles ajudou a salvar uma vida? Quem dele manteve os postos de trabalho? Quem deles defendeu o Auxílio Emergencial?   Hoje, o Brasil se transformou no país da retórica escrita para “gringo” ler. Porque o brasileiro pouco lê ou pouco entende as mensagens. As notícias faltas, conhecidas por fakenews, tornaram-se pós-verdade publicada nos jornais, ouvidas nas rádios e telejornais. Sobretudo, lida nas mídias sociais e grupos de whatsapp. Mentira repetida muitas vezes vira verdade, não é mesmo?   O presidente mente descaradamente. A minha mãe acredita.   Amanhã não será diferente se mantivermos essa postura passiva. Afinal, no papel cabe tudo. É preciso pensar um projeto para o Brasil, onde a sociedade tenha vez e voz. Difícil em tempos de #isolamentosocial, pois o bom-senso e a saúde coletiva nos impede de ir para as ruas…   Temos a possibilidade de somar a participação popular em petições públicas, mas até elas serem votadas será um longo caminho. O Conselhos participativos também são oportunidades de construção de políticas públicas, mas é no corpo a corpo que iremos difundir a notícia real.   Vivemos – se sobrevivermos à #Covid-19 – o limite que determinará o futuro próximo. O cenário que vejo não é alentador. Vejo mais mortes, desemprego, fome, violência e abandono no Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza.   Antes que seja tarde demais, é preciso aprender a lição ensinada pelo Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire:   Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens se libertam em comunhão.

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Os sons do silêncio

  Um amigo que nunca trai Por Carlos Monteiro   Antes da proliferação do ‘home office’, que, ao que tudo indica, veio para ficar, os sons nossos de cada dia se limitavam ao liquidificador-triturador, poderoso, da vizinha do terceiro andar. Moça faceira, extremamente simpática e gentil, daquelas que vai para academia diariamente, anda de ‘bike’ e é chegada a uma comida natureba, leia-se vegetariana saudável. Pontualmente às 6h, como um marcador de tempo compassado de amor, lá vinha o som. Com certo ritmo, tinha até uma melodia. Era, como me confessou um dia, o seu “detox matinal”, tomado em jejum. Uma ‘mistureba’ de ingredientes, alguns impronunciáveis, cuja receita fez questão de me ofertar, indicando uma vida mais saudável. Vinha do choro do bebê do casal recém-chegado ao prédio. Simpáticos, é o primeiro filho de ambos. Um choro, que cotidianamente, me remetia às minhas filhas, às músicas de acalanto e, é claro, Vinícius de Moraes: “…Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-los?/Se não os temos/Que de consulta/Quanto silêncio/Como os queremos!…/…Que coisa louca/Que coisa linda/Que os filhos são!”. Nada que, com uma boa mamada, um chá de erva-doce e um passeio matinal ao Sol do ‘play’, não resolvesse. Pelos meninos do oitavo, naquele lenga-lenga tradicional, misto de pirraça e sono, nos preparativos para ir à escola. Uma vez ou outra, um grito ecoava pelo poço de ventilação, anunciando que a mãe deles havia chegado em seu limite. Era de tal monta o berro que, até eu ficava quietinho no meu canto; vai que sobra para mim…! Resultava do “— Caixinha!!!!! Obrigado!!!!!!”, gritado, a plenos pulmões, pelo pasteleiro da barraca-Kombi, montada na pracinha em frente e respondido, em coro, por seus colaboradores em reação aos cinquenta centavos deixados de brinde na soma do combinado pastel-caldo de cana. Dos sons tradicionais do trânsito de motoristas mais afoitos e suas buzinas infernais, das descargas aberta das motocicletas envenenadas, dos caminhões-caçamba e seus contêineres com correntes soltas, dos helicópteros vindo do heliponto da Lagoa ou que, quebrando regras de horários permitidos, sobrevoavam o Cristo Redentor em seus braços abertos sobre a Guanabara. Esses sons, não havia percebido, eram puro Chico Buarque para meus ouvidos. Me beijavam com a boca de hortelã, às 6h da manhã. Hoje, se juntaram ao “Cotidiano”, “Collapse” do War of Ages e “The Evil House” da Malchus Band – do hebraico Meleque, que significa “rei”-,  banda ‘heavy metal’ gospel católica polonesa, se é que isso é possível. Nada contra o estilo, confesso, em certas horas até ‘cai’ bem um Ratos do Porão, Angra, Orquídea Negra e Project46. Nunca, jamais, às 6h da matina. É um tal de cachorro uivando, o dia inteiro, porque, adotado durante a pandemia, para fazer companhia – ô rima pobre – à solitária de nono andar, agora, após sua volta ao trabalho na empresa, o Biscoito se tornou um inveterado solitário e pensa ascender a lobo. Para tal, treina diuturnamente no que é acompanhado pela matilha, residente anteriormente, nos aposentos condominiais. Estão fazendo sucesso, já pensam em montar uma banda “Biscoito e seus cãezinhos adestrados”! É morador do quinto e do segundo demonstrando gostos musicais ecléticos: o de baixo, chegadíssimo ao brega; é Waldick Soriano, Manhoso, Reginaldo Rossi, Evaldo Braga, Raimundo Soldado, Odair José, censurado nos anos de chumbo por tentar tirar sua amada que, como escreve o querido Ancelmo, trabalhava numa casa de saliência ou por pedir, a outra, que parasse de tomar a pílula. Também nada contra, respeito todos os gostos musicais, agora ‘sacudindo a laje’, em meio a uma reunião virtual com cliente… não dá! O outro, do andar mais alto, gosta de funk – o mesmo ‘blá-blá-bla´ do nada contra. Resolveram competir que ‘troa melhor a caixa, quem tem mais watts de potência nas ‘JBLs’ compradas no camelô da esquina. Isso sem falar que a dona de casa do primeiro andar acredita piamente que “em vinte minutos, tudo pode mudar”. Band News das 6h às 23h. Talvez se ache o serviço de alto-falantes noticioso do condomínio. Vejo, ou melhor, ouço a hora que vai oferecer música no “Correio Musical Elegante do Marquês do Pinel”. Nesta área temos uma professora de piano e suas aulas virtuais – já sei a escala de trás para frente e vice-versa, com seu metrônomo que mais parece o Big Ben londrino. O menino da cobertura, que não sabia, é guitarrista e a senhorinha do terceiro, cantora dos anos 1950 e 1960, e suas interpretações, dia sim, dia não, pela janela do prédio de canções de Vicente Celestino, Carmem Miranda, Dolores Duran e Aracy de Almeida. “…pois meu último desejo/Você não pode negar…”. Ah, posso, posso sim. Preciso escrever a crônica… o que posso fazer se a senhora não quer beijar mais? Talvez, se beijasse, manteria a boca ocupada, aliás, a senhora já notou como o seu João de 503 é simpático? Está solteiro; quem sabe…! Que saudades que tenho quando os sons eram ‘a mais’, no máximo, dos fogos da comunidade anunciando o alvorecer para a ‘rapaize’, que a dura, numa muito escura viatura, já estava no portão. Eu vou chamar o Tim Maia.   Carlos Monteiro é jornalista e fotógrafo      

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